Literacia da memória: mudanças entre as edições

De Literacia da Memória
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|description=O projeto Literacia da Memória promove o estudo crítico da memória sociológica em articulação com a literacia mediática, explorando como as memórias são formadas, transmitidas e utilizadas na sociedade. Disponibiliza conteúdos, investigação e recursos para compreender o papel do passado no presente.
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Andrew Hoskins é um pesquisador britânico na área de estudos da mídia, comunicação e memória, professor de Global Security, Politics and Memory na [https://www.gla.ac.uk University of Glasgow] e fundador do Centre for Memory, Narrative and Histories. É reconhecido por suas contribuições ao estudo da memória no contexto da cultura digital, tendo desenvolvido o conceito de “memória conectada” <ref>(connected memory)</ref> para analisar como redes digitais, plataformas online e fluxos contínuos de informação transformam a produção, circulação e preservação da memória. Seu trabalho também explora as relações entre mídia, guerra e temporalidade, investigando como ambientes digitais reconfiguram a experiência do tempo histórico e desafiam modelos tradicionais de arquivo e autoridade. Situando-se na interseção entre teoria da mídia, estudos culturais e comunicação, suas pesquisas oferecem uma abordagem crítica sobre os impactos das infraestruturas digitais na memória contemporânea.
A literacia da memória é um conceito emergente situado na interseção entre os estudos da memória e as literacias mediáticas, que procura compreender de que modo os indivíduos interpretam, constroem e participam na produção de narrativas sobre o passado em contextos contemporâneos. A emergência do conceito pode ser associado ao trabalho de [[Pedro Lopes]], que a definiu como a capacidade crítica de analisar representações mediadas da memória, particularmente no âmbito da ficção audiovisual, destacando o seu papel na construção da memória social. Posteriormente, o conceito foi desenvolvido e aprofundado por [[Valdemir Santos Neto]], que o enquadrou nos ambientes digitais e nas dinâmicas de circulação contemporâneas, propondo uma abordagem mais estruturada e operacional.


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! colspan="2" style="text-align:center; font-size:140%; padding:0.4em; background-color:#555; color:#fff;" | Andrew Hoskins
! colspan="2" style="text-align:center; font-size:140%; padding:0.4em; background-color:#555; color:#fff;" | Literacia da Memória
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| colspan="2" class="infobox-bio-img" style="text-align:center; padding:0.5em;" | [[File:Andrew_Hoskins.jpg|250px]]
! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Definição
| style="padding:0.3em;" | Capacidade crítica de compreender, interpretar e produzir práticas de memória em contextos mediáticos e digitais.
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! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Nascimento
! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Área
| style="padding:0.3em;" | Não divulgado
| style="padding:0.3em;" | Estudos da memória<br>Estudos da mídia<br>Comunicação
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! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Subáreas
| style="padding:0.3em;" | Memória cultural<br>Memória digital<br>Literacia mediática
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! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Contexto
| style="padding:0.3em;" | Emergente no contexto da cultura digital e da mediação tecnológica da memória (século XXI).
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! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Nacionalidade
! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Principais autores
| style="padding:0.3em;" | Britânica
| style="padding:0.3em;" | [[Pedro Lopes]]<br>[[Valdemir Santos Neto]]
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! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Ocupação
! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Conceitos relacionados
| style="padding:0.3em;" | Pesquisador<br>Professor universitário
| style="padding:0.3em;" | Memória coletiva<br>Memória cultural<br>Arquivamento digital<br>Cultura participativa
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! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Área
! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Aplicações
| style="padding:0.3em;" | Estudos da mídia<br>Memória cultural<br>Cultura digital
| style="padding:0.3em;" | Educação<br>Análise mediática<br>Patrimônio digital<br>Cultura digital
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! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Instituição
! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Palavras-chave
| style="padding:0.3em;" | [https://www.gla.ac.uk University of Glasgow]
| style="padding:0.3em;" | memória digital, mediação, arquivo, cultura digital
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! style="text-align:left; padding:0.3em;" | Estado
| style="padding:0.3em;" | [https://www.andrewhoskins.net Site oficial]
| style="padding:0.3em;" | Conceito emergente em desenvolvimento teórico
|}
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Hoskins também investiga as relações entre mídia, guerra e segurança, examinando como conflitos contemporâneos são registrados, mediados e lembrados em ambientes digitais. Sua abordagem enfatiza a velocidade, a volatilidade e a sobrecarga informacional características das redes, que desafiam formas tradicionais de autoridade histórica e de preservação do conhecimento, contribuindo para uma compreensão crítica da memória na era da comunicação global.
Ancorada teoricamente em autores como [[Maurice Halbwachs]] e [[Andrew Hoskins]], a literacia da memória parte do princípio de que a memória é socialmente construída, mediada por dispositivos culturais e sujeita a disputas interpretativas. Nesse sentido, envolve um conjunto de competências que permitem reconhecer a natureza seletiva e narrativa das representações do passado, avaliar criticamente a sua circulação em media tradicionais e digitais, e compreender os processos pelos quais a memória é continuamente reconfigurada em contextos marcados pela participação dos utilizadores, pela lógica algorítmica e pela transformação tecnológica.


== Conceito == <!--T:5-->
== Conceito == <!--T:6-->


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==== Primeiros estudos ====
==== Primeiros estudos ====
O termo literacia da memória surge no contexto recente de desenvolvimento dos Memory Studies em articulação com os estudos de media e comunicação, não possuindo uma origem clássica consolidada nem um uso estabilizado ao longo do século XX. A sua formulação enquanto conceito explícito pode ser identificada de forma mais sistemática no trabalho de Pedro Lopes, nomeadamente no artigo Literacia da memória: ficção audiovisual e o seu contributo para a construção da memória social, publicado na revista Comunicação Pública. Nesse texto, o autor apresenta o termo como uma proposta conceptual inicial explicitamente descrita como uma “primeira abordagem” indicando que não se trata de um conceito previamente estabelecido, mas sim de uma tentativa de nomear e estruturar um campo emergente. A importância desse trabalho reside precisamente no facto de oferecer uma das primeiras definições sistematizadas do termo em contexto académico, ancorando-o na análise da relação entre memória social e media audiovisuais.
O termo literacia da memória surge no contexto recente de desenvolvimento dos Memory Studies em articulação com os estudos de media e comunicação, não possuindo uma origem clássica consolidada nem um uso estabilizado ao longo do século XX. A sua formulação enquanto conceito explícito pode ser identificada de forma mais sistemática no trabalho de [[Pedro Lopes]], nomeadamente no artigo ''Literacia da memória: ficção audiovisual e o seu contributo para a construção da memória social''<ref>[https://journals.ipl.pt/cpublica/article/view/742 Comunicação Pública]</ref>, publicado na revista Comunicação Pública. Nesse texto, o autor apresenta o termo como uma proposta conceptual inicial, explicitamente descrita como uma “primeira abordagem”, indicando que não se trata de um conceito previamente estabelecido, mas sim de uma tentativa de nomear e estruturar um campo emergente. A importância desse trabalho reside precisamente no facto de oferecer uma das primeiras definições sistematizadas do termo em contexto académico, ancorando-o na análise da relação entre memória social e media audiovisuais.


No desenvolvimento do conceito, Lopes parte da constatação de que, nas sociedades contemporâneas, a construção da memória social é fortemente mediada por produtos culturais, em particular pela ficção audiovisual (cinema e televisão). A literacia da memória é, assim, definida como a capacidade de interpretar criticamente essas representações do passado, tendo em conta que elas não são neutras nem meramente informativas, mas resultam de processos de seleção, enquadramento e narrativa. O autor sublinha que essas representações operam num campo de tensões entre diferentes agentes sociais, interesses e regimes de memória, o que implica que o público desenvolva competências específicas para reconhecer a dimensão construída, plural e, por vezes, conflitual da memória. Neste sentido, o conceito aproxima-se de outras literacias críticas como a literacia mediática — mas distingue-se por incidir especificamente sobre a relação entre media e memória histórica, enfatizando a necessidade de compreender como o passado é continuamente reconfigurado no presente através de dispositivos culturais e mediáticos.
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No desenvolvimento do conceito, Lopes parte da constatação de que, nas sociedades contemporâneas, a construção da memória social é fortemente mediada por produtos culturais, em particular pela ficção audiovisual (cinema e televisão). A literacia da memória é, assim, definida como a capacidade de interpretar criticamente essas representações do passado, tendo em conta que elas não são neutras nem meramente informativas, mas resultam de processos de seleção, enquadramento e narrativa. O autor sublinha que essas representações operam num campo de tensões entre diferentes agentes sociais, interesses e regimes de memória, o que implica que o público desenvolva competências específicas para reconhecer a dimensão construída, plural e, por vezes, conflitual da memória. Neste sentido, o conceito aproxima-se de outras literacias críticas, como a [[literacia midiática]], mas distingue-se por incidir especificamente sobre a relação entre media e memória histórica, enfatizando a necessidade de compreender como o passado é continuamente reconfigurado no presente através de dispositivos culturais e mediáticos.


Do ponto de vista genealógico e teórico, a literacia da memória, tal como proposta por Lopes, insere-se numa dupla tradição. Por um lado, dialoga diretamente com os fundamentos dos estudos da memória, nomeadamente a noção de memória coletiva formulada por Maurice Halbwachs e posteriormente desenvolvida em termos de memória cultural por autores como Jan Assmann, que enfatizam o caráter socialmente construído e institucionalmente mediado da memória. Por outro lado, articula-se com a evolução do conceito de literacia no âmbito dos New Literacy Studies, que expandiram a noção de literacia para além da competência técnica de leitura e escrita, incorporando dimensões críticas, contextuais e multimodais. A literacia da memória emerge, assim, como um conceito situado na interseção destes dois campos, procurando responder a transformações contemporâneas marcadas pela centralidade dos media na produção de narrativas históricas. Apesar dessa fundamentação teórica, permanece um conceito em consolidação, cuja utilização ainda é relativamente circunscrita e dependente de contextos específicos de investigação e aplicação.
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Do ponto de vista genealógico e teórico, a literacia da memória, tal como proposta por Lopes, insere-se numa dupla tradição. Por um lado, dialoga diretamente com os fundamentos dos estudos da memória, nomeadamente a noção de memória coletiva formulada por Maurice Halbwachs e posteriormente desenvolvida em termos de memória cultural por autores como Jan Assmann, que enfatizam o caráter socialmente construído e institucionalmente mediado da memória. Por outro lado, articula-se com a evolução do conceito de literacia no âmbito dos New Literacy Studies, que expandiram a noção de literacia para além da competência técnica de leitura e escrita, incorporando dimensões críticas, contextuais e multimodais. A literacia da memória emerge, assim, como um conceito situado na interseção destes dois campos, procurando responder a transformações contemporâneas marcadas pela centralidade dos media na produção de narrativas históricas. Apesar dessa fundamentação teórica, permanece um conceito em consolidação, cuja utilização ainda é relativamente circunscrita e dependente de contextos específicos de investigação e aplicação.
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==== Consolidação e desenvolvimento conceptual ====
A consolidação do conceito de literacia da memória ocorre no âmbito de investigações recentes que procuram sistematizar a articulação entre os Memory Studies e a literacia mediática em contextos digitais. Um contributo relevante para esse processo encontra-se na tese de [[Valdemir Santos Neto]], que propõe um desenvolvimento teórico e metodológico mais estruturado do conceito a partir das formulações iniciais de Lopes. Nesta investigação, a literacia da memória é tratada como um campo em construção, cujo objetivo é responder às transformações contemporâneas nos modos de produção, circulação e interpretação da memória em ambientes mediados por tecnologias digitais.


==== Carreira acadêmica ====
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Andrew Hoskins desenvolveu uma carreira acadêmica marcada por posições de destaque em instituições britânicas, especialmente no campo interdisciplinar entre mídia, memória e segurança. Atuou como Interdisciplinary Research Professor na University of Glasgow, onde integrou o College of Social Sciences e consolidou sua reputação como um dos principais nomes dos memory studies contemporâneos. Posteriormente, passou a ocupar uma personal chair como Professor de AI, Memory and War na University of Edinburgh, refletindo a evolução de sua pesquisa para temas como inteligência artificial, guerra digital e transformação da memória em ambientes tecnológicos avançados . Ao longo de sua carreira, também exerceu papel central na estruturação institucional do campo, sendo fundador e editor de importantes periódicos acadêmicos, como Memory Studies, Memory, Mind & Media e Digital War, além de coeditor de séries editoriais voltadas à relação entre mídia, conflito e memória .
A tese insere o conceito num contexto marcado pela intensificação da mediação tecnológica da memória, caracterizado por processos como a plataformização, a lógica algorítmica e a circulação contínua de conteúdos em redes sociais. Neste cenário, a memória deixa de estar exclusivamente associada a instituições tradicionais (como arquivos ou museus) e passa a ser continuamente reconfigurada em ambientes digitais, nos quais os sujeitos desempenham um papel ativo na sua produção e ressignificação. A literacia da memória é, assim, conceptualizada como um conjunto de competências que permite compreender criticamente esses processos, incluindo a capacidade de interpretar representações mediadas do passado, reconhecer a sua natureza construída e participar na sua circulação e transformação.


Além das posições docentes, Hoskins destacou-se por sua atuação como líder acadêmico e organizador de redes de pesquisa internacionais, frequentemente envolvido em projetos financiados e colaborações interdisciplinares de grande escala. Sua participação como investigador em programas de financiamento, incluindo iniciativas internacionais como bolsas da Japan Society for the Promotion of Science e da Daiwa Anglo-Japanese Foundation, evidencia o reconhecimento institucional de seu trabalho . Embora não seja amplamente associado a prêmios tradicionais de grande visibilidade pública, sua influência manifesta-se sobretudo na criação de infraestruturas intelectuais — periódicos, séries editoriais e agendas de pesquisa — que moldaram o desenvolvimento dos estudos da memória digital no século XXI, consolidando sua posição como uma referência acadêmica no campo.
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No plano conceptual, a investigação de Santos Neto propõe uma articulação entre diferentes tradições teóricas, incluindo contributos dos estudos da memória (como Maurice Halbwachs, Andreas Huyssen e Alison Landsberg), dos estudos da cultura de fãs e dos media, bem como das teorias da literacia mediática. A partir dessa articulação, o conceito é desenvolvido como uma ferramenta analítica capaz de captar a complexidade das práticas de rememoração na cultura digital, particularmente em contextos de participação ativa dos utilizadores, como a produção e circulação de conteúdos audiovisuais.


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==== Mestrado ====
Um dos principais avanços da tese reside na operacionalização do conceito através de um modelo analítico específico, designado como Modelo 4M, que organiza as competências mnemônicas em dimensões interdependentes. Estas dimensões permitem analisar de forma estruturada os processos pelos quais os indivíduos evocam, mobilizam, mediam e transformam a memória em ambientes digitais, articulando aspectos técnicos, afetivos e interpretativos. Este modelo constitui uma tentativa de sistematizar o conceito de literacia da memória, oferecendo critérios analíticos aplicáveis à investigação empírica e contribuindo para a sua consolidação enquanto ferramenta metodológica.
Nos seus estudos de pós-graduação, Andrew Hoskins desenvolveu uma formação interdisciplinar voltada para a comunicação, mídia e cultura, que viria a orientar toda a sua trajetória acadêmica posterior. Embora os detalhes específicos de seu mestrado não sejam amplamente divulgados em fontes institucionais, é possível situar esse período como fundamental para a consolidação de seus interesses nos processos mediáticos e na construção social da memória. Seus estudos avançados forneceram a base teórica e metodológica para suas investigações iniciais sobre mídia e história, particularmente no contexto da mediação televisiva, antecipando as questões que mais tarde seriam aprofundadas em sua análise da memória digital e das transformações trazidas pelas tecnologias conectadas.
 
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==== Doutorado ====
Andrew Hoskins realizou seu doutorado em Sociologia na [https://www.lancaster.ac.uk Lancaster University], onde desenvolveu uma pesquisa centrada na relação entre tempo, mídia e memória, com foco específico na cobertura televisiva da Guerra do Golfo de 1991. Sua tese, intitulada “Time, Television and Memory – The Multiple Presents and Presence of the 1991 Gulf War”, investigou como a transmissão em tempo real pela televisão produzia múltiplas experiências simultâneas do presente, alterando a forma como eventos históricos eram percebidos e posteriormente lembrados. O presente trabalho já indicava uma preocupação central com a mediação tecnológica da memória, propondo que a televisão não apenas registra acontecimentos, mas reorganiza a própria temporalidade da experiência histórica, ao fundir passado e presente em fluxos contínuos de informação.
 
Neste sentido, o doutorado de Hoskins estabeleceu as bases conceituais para o desenvolvimento posterior de sua teoria da memória na era digital, ao antecipar questões que se tornariam centrais com o avanço das tecnologias conectadas. Ao analisar a televisão como um meio capaz de fragmentar e reconfigurar o tempo histórico, sua pesquisa abriu caminho para suas formulações sobre “ecologias da memória” e, mais tarde, “memória conectada”, nas quais a lembrança é entendida como um processo dinâmico, distribuído e dependente de infraestruturas mediáticas. O percurso evidencia a continuidade entre seus estudos iniciais e suas contribuições mais recentes, que expandem a análise da mediação televisiva para ambientes digitais marcados por conectividade permanente, arquivos em rede e participação ampliada dos usuários na produção da memória social.


== Principais obras ==
== Principais obras == <!--T:37-->


=== ''War and Media: The Emergence of Diffused War'' (2010, com Ben O’Loughlin) ===
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=== ''Literacia da Memória e Cultura de fãs: a linguagem audiovisual dos edits no TikTok sobre o universo ficcional de The Crown'' (2025, Valdemir Santos Neto) ===
[[Ficheiro:War and Media capa.jpg|miniatura|Capa do livro]]
[[Ficheiro:War and Media capa.jpg|miniatura|Capa do livro]]
''War and Media: The Emergence of Diffused War (2010)'', de Andrew Hoskins e Ben O’Loughlin, é uma obra central para compreender a transformação contemporânea dos conflitos armados a partir da evolução dos meios de comunicação, propondo o conceito de “guerra difusa” (diffused war) como um novo paradigma no qual a guerra deixa de ser um evento delimitado no espaço e no tempo para se tornar um processo contínuo, disperso e profundamente integrado às ecologias mediáticas. Publicado pela Polity Press, o livro oferece uma análise abrangente das relações entre governo, forças militares e públicos, que passam a estar interligados de forma imediata e imprevisível em um ambiente marcado pela conectividade digital e pelo fluxo constante de informação . Os autores argumentam que os meios de comunicação — da televisão ao ambiente digital — não apenas representam a guerra, mas participam ativamente de sua condução, influenciando decisões estratégicas, percepções públicas e dinâmicas políticas, ao mesmo tempo em que produzem novas assimetrias e incertezas no campo dos conflitos .
''Literacia da Memória e Cultura de fãs: a linguagem audiovisual dos edits no TikTok sobre o universo ficcional de The Crown (2025)'', tese de Valdemir Santos Neto, representa um dos primeiros esforços sistemáticos de consolidação do conceito de literacia da memória no campo académico. Inserida no âmbito dos Memory Studies e em diálogo direto com a literacia mediática, a investigação parte do reconhecimento de que o conceito, anteriormente proposto de forma inicial por Lopes, carecia de aprofundamento teórico, delimitação conceptual e, sobretudo, de uma operacionalização metodológica. Nesse sentido, a tese não apenas mobiliza o conceito, mas procura estruturá-lo como um campo analítico emergente, respondendo a lacunas identificadas na literatura sobre memória em contextos digitais.


Ao longo da obra, Hoskins e O’Loughlin desenvolvem uma abordagem teórica inovadora ao demonstrar que a guerra contemporânea é “difundida” através de uma rede complexa de mediações que incluem jornalistas, governos, militares e cidadãos comuns, todos atuando simultaneamente na produção, circulação e interpretação de informações sobre o conflito . Essa difusão implica uma ruptura com os modelos tradicionais de guerra e de comunicação, na medida em que a conectividade digital permite a documentação em tempo real, a viralização de imagens e narrativas e a participação ampliada de múltiplos atores, criando um ambiente no qual as fronteiras entre combate, representação e memória tornam-se cada vez mais instáveis. O livro também funciona como uma síntese crítica da literatura sobre guerra e mídia, ao mesmo tempo em que estabelece bases conceituais para estudos posteriores sobre guerra digital e memória conectada, tornando-se uma referência fundamental nos campos da comunicação, estudos culturais e relações internacionais. <!--T:15-->
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Um dos contributos centrais do trabalho reside na sua capacidade de integrar, de forma coerente, diferentes tradições teóricas que até então operavam de maneira relativamente dispersa. A tese articula os fundamentos da memória coletiva, desenvolvidos por Maurice Halbwachs, com abordagens contemporâneas sobre mediação da memória e cultura digital, incluindo contributos de autores como Andreas Huyssen e Alison Landsberg. A essa base soma-se o diálogo com os estudos da cultura de fãs e da convergência mediática, permitindo enquadrar as práticas participativas como formas ativas de produção e circulação da memória. Essa articulação teórica contribui para consolidar a literacia da memória como um conceito situado na interseção entre memória, media e cultura digital, superando abordagens fragmentadas e oferecendo um enquadramento interdisciplinar mais robusto.


=== ''Amnesia: Media, Memory, and the Vanishing Past'' (2016) ===
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[[Ficheiro:Media, Memory and the Vanishing capa.jpg|miniatura|Capa do livro]]
No plano empírico, a tese reforça essa consolidação ao demonstrar, através da análise da série The Crown e das práticas de remixagem em TikTok, como a memória coletiva é continuamente reconfigurada por práticas culturais mediadas. Os edits produzidos por fãs são analisados como dispositivos mnemônicos que operam simultaneamente em níveis afetivos, narrativos e interpretativos, evidenciando que a memória, no contexto digital, é construída através de processos de seleção, recontextualização e circulação. Ao deslocar o foco das instituições tradicionais para os utilizadores e suas práticas criativas, a investigação contribui para redefinir o objeto de estudo da memória, incorporando a dimensão participativa e algorítmica das plataformas digitais como elementos centrais na análise contemporânea.
''Amnesia: Media, Memory, and the Vanishing Past'' (2016) constitui uma das obras mais sistemáticas de sua reflexão sobre os efeitos da cultura digital na memória contemporânea, propondo a tese de que vivemos um processo paradoxal no qual o excesso de registro e armazenamento de dados não fortalece a memória, mas contribui para o seu enfraquecimento. No livro, Hoskins argumenta que a transição das mídias analógicas — marcadas pela escassez, degradação material e “tempo de decaimento” — para ambientes digitais hiperconectados altera profundamente a relação entre passado e presente, eliminando a distância temporal que tradicionalmente estruturava a memória histórica. Enquanto no passado a deterioração dos suportes físicos (como filmes, fitas e arquivos impressos) implicava uma seleção e valorização do que era preservado, o digital promove uma acumulação contínua, instantânea e aparentemente infinita de traços do passado, transformando a memória em um fluxo incessante e instável de dados .


Nesse contexto, Hoskins desenvolve a ideia de que a memória contemporânea é marcada por uma “amnésia” estrutural, não no sentido de esquecimento por ausência, mas por saturação e perda de significado, em que o passado se torna constantemente presente, porém descontextualizado e difícil de interpretar. O livro analisa como redes sociais, arquivos digitais e práticas de compartilhamento produzem uma memória distribuída, volátil e dependente de infraestruturas tecnológicas, deslocando o controle da lembrança dos indivíduos e instituições para sistemas algorítmicos e plataformas digitais. Ao enfatizar a hiperconectividade e a compressão temporal, Hoskins mostra que a memória deixa de ser um processo de reconstrução reflexiva para se tornar uma atividade contínua, automatizada e muitas vezes inconsciente, em que lembrar e esquecer se confundem. Assim, Amnesia oferece uma crítica central à cultura digital, ao demonstrar que a proliferação de registros não garante preservação significativa do passado, mas pode, ao contrário, contribuir para sua dissolução na lógica acelerada e fragmentada da comunicação contemporânea.<!--T:16-->
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A consolidação do conceito torna-se particularmente evidente na proposta metodológica desenvolvida pela tese. A partir do modelo de Análise da Qualidade no Audiovisual, o autor elabora o chamado Modelo 4M, que estrutura a literacia da memória em dimensões analíticas interdependentes. Este modelo permite operacionalizar o conceito, transformando-o de uma formulação teórica abstrata em uma ferramenta aplicável à investigação empírica. Ao definir critérios e categorias de análise das competências mnemônicas — relacionadas à evocação, mediação, mobilização e circulação da memória —, a tese oferece um quadro metodológico que possibilita examinar de forma sistemática as práticas de rememoração em ambientes digitais.
==== Desdobramentos conceptuais da literacia da memória ====
Os desdobramentos conceituais da literacia da memória, a partir da tese de Valdemir Soares dos Santos Neto, podem ser organizados como categorias analíticas emergentes que ajudam a explicar como a memória é construída, mediada e disputada na cultura digital. Esses desdobramentos não são necessariamente “conceitos clássicos”, mas sim extensões operacionais do conceito central, derivadas da análise empírica (fandom, edits, plataformas).
===== Guardiões da memória =====
O conceito de guardiões da memória designa a função exercida por sujeitos que, no interior de ecossistemas mediáticos e culturais, participam ativamente na preservação, regulação e legitimação das narrativas sobre o passado. No âmbito da literacia da memória, o termo não se refere apenas a agentes institucionais, mas sobretudo a atores distribuídos, como membros de comunidades de fãs, que mobilizam competências mnemônicas para avaliar, reinterpretar e estabilizar sentidos atribuídos à memória coletiva. Trata-se, portanto, de uma noção conceitual que descreve a atuação de sujeitos capazes de intervir nos processos de construção da memória, operando como instâncias de validação simbólica em contextos marcados pela mediação digital. Os guardiões não apenas reproduzem conteúdos, mas exercem uma função normativa e interpretativa, contribuindo para a manutenção, disputa e reconfiguração das representações do passado em circulação social.
===== Competências mnemônicas =====
O conceito de competências mnemônicas refere-se ao conjunto de capacidades cognitivas, interpretativas e críticas mobilizadas pelos sujeitos na compreensão, produção e circulação de narrativas sobre o passado. No âmbito da literacia da memória, essas competências ultrapassam a simples recordação de eventos, envolvendo a habilidade de reconhecer a natureza mediada da memória, identificar processos de seleção e enquadramento, e avaliar a verossimilhança e os usos sociais das representações mnemônicas. Enquanto categoria analítica, as competências mnemônicas articulam dimensões cognitivas, afetivas e mediáticas, permitindo compreender como os indivíduos interpretam e reconfiguram o passado em contextos contemporâneos marcados pela circulação digital de conteúdos. Nesse sentido, constituem o núcleo operacional da literacia da memória, tornando possível analisar empiricamente os diferentes níveis de leitura crítica e participação dos sujeitos nos processos de construção da memória coletiva.
===== Remixagem mnemônica =====
O conceito de remixagem mnemônica refere-se ao processo de reconfiguração do passado por meio da recombinação de fragmentos de memória em novos arranjos narrativos, especialmente em ambientes mediáticos digitais. No âmbito da literacia da memória, a remixagem mnemônica envolve a apropriação de conteúdos preexistentes, como imagens, vídeos ou narrativas históricas, que são editados, reorganizados e ressignificados para produzir novas interpretações sobre o passado. Trata-se de uma prática que evidencia o caráter não fixo da memória, destacando a sua natureza processual, mediada e culturalmente situada. Enquanto categoria analítica, a remixagem mnemônica permite compreender como sujeitos, particularmente em contextos de cultura participativa, atuam como agentes ativos na construção da memória coletiva, articulando dimensões estéticas, afetivas e interpretativas na produção de sentidos em circulação social.


=== ''Risk and Hyperconnectivity: Media and Memories of Neoliberalism'' (2016, com John Tulloch) ===
[[Ficheiro:Risk and Hyperconnectivity capa.jpg|miniatura|Capa do livro]]
Risk and Hyperconnectivity: Media and Memories of Neoliberalism (2016), de Andrew Hoskins e John Tulloch, é uma obra que propõe uma articulação teórica inovadora entre três campos fundamentais — teoria do risco, teoria da neoliberalização e teoria da conectividade — para compreender as transformações contemporâneas da memória e da experiência social em um mundo hiperconectado. Publicado pela Oxford University Press, o livro analisa como os eventos críticos do início do século XXI — como crises econômicas, terrorismo e conflitos globais — são mediados por ecologias comunicacionais intensivas, nas quais a circulação contínua de informações redefine tanto a percepção do risco quanto os modos de lembrar e esquecer. Os autores argumentam que a hiperconectividade não é apenas um meio através do qual o risco circula, mas constitui em si uma nova condição de risco, ao alterar profundamente a forma como indivíduos e sociedades experienciam eventos, constroem narrativas e produzem memória em ambientes saturados de mídia.


A obra também examina criticamente como essas dinâmicas estão inseridas no contexto do neoliberalismo, mostrando que as memórias mediadas desempenham um papel central na legitimação de políticas econômicas, regimes de segurança e formas de governança contemporâneas. Por meio de estudos de caso e análise interdisciplinar, Hoskins e Tulloch exploram questões como o equilíbrio entre privacidade e vigilância, o papel dos jornalistas como mediadores do risco e a maneira como práticas de lembrança e esquecimento contribuem para a formação de culturas de insegurança. O livro demonstra que, em uma era de conectividade permanente, a memória torna-se cada vez mais distribuída, instável e dependente de infraestruturas tecnológicas, ao mesmo tempo em que participa ativamente da reprodução — e contestação — das estruturas neoliberais, consolidando-se como uma referência importante nos estudos sobre mídia, memória e política contemporânea
== Abordagens metodológicas == <!--T:19-->
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=== ''Digital Memory Studies: Media Pasts in Transition'' (2017, editor) ===
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[[Ficheiro:Digital Memory Studies capa.jpg|miniatura|Capa do livro]]
A sistematização das abordagens metodológicas no âmbito da literacia da memória tem como objetivo organizar, de forma coerente e operacional, os diferentes procedimentos analíticos utilizados para compreender as práticas contemporâneas de construção, mediação e circulação da memória. Nesse contexto, destaca-se a proposta de modelos analíticos que permitem observar não apenas os produtos culturais em si, mas também os processos de criação, circulação e recepção, evidenciando as competências mnemônicas mobilizadas pelos sujeitos. Tal sistematização contribui para transformar a literacia da memória em uma ferramenta metodológica aplicável, possibilitando a investigação estruturada das dinâmicas de rememoração em ambientes digitais e consolidando o campo enquanto domínio analítico em desenvolvimento.
Digital Memory Studies: Media Pasts in Transition (2017), editado por Andrew Hoskins, constitui uma obra coletiva fundamental para a consolidação do campo dos estudos da memória digital, reunindo contribuições de diversos pesquisadores com o objetivo de mapear, problematizar e redefinir as relações entre mídia e memória no contexto das tecnologias contemporâneas. Publicado pela Routledge, o livro propõe uma agenda interdisciplinar que articula teoria da mídia, estudos culturais, história e sociologia para compreender como os ambientes digitais transformam simultaneamente os processos de lembrar e esquecer, introduzindo condições paradoxais nas quais a memória é ao mesmo tempo ampliada e submetida a novas formas de controle.


A obra enfatiza que redes digitais, arquivos online e plataformas tecnológicas não apenas reconfiguram a preservação do passado, mas também alteram sua circulação e significado, exigindo uma revisão crítica dos conceitos clássicos de memória coletiva, arquivo e temporalidade .
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Estruturado a partir de diferentes eixos analíticos — como conectividade, arqueologia da mídia, economia e arquivo — o livro examina uma ampla gama de fenômenos, incluindo redes sociais, videogames, televisão, instituições de memória e o chamado “pós-vida digital”, evidenciando como o passado se torna cada vez mais distribuído, dinâmico e reconfigurável em ambientes hiperconectados . Um dos argumentos centrais desenvolvidos por Hoskins na introdução é o de que vivemos um “terceiro boom da memória”, marcado por uma intensificação sem precedentes da presença do passado no presente, mediada por tecnologias digitais que comprimem o tempo e ampliam a participação dos usuários na produção de narrativas históricas . Nesse sentido, Digital Memory Studies não apenas sintetiza debates existentes, mas estabelece um quadro teórico abrangente para compreender a “remodelação digital da memória”, tornando-se uma referência essencial para pesquisadores interessados nas transformações contemporâneas da cultura, da comunicação e da memória.
=== Modelo 4M ===
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[[Ficheiro:tríade literacia da memória.png|miniatura|Modelo interseccional proposto por Santos Neto (2025)]]
O Modelo 4M constitui uma proposta metodológica desenvolvida no âmbito da literacia da memória, com o objetivo de operacionalizar a análise das práticas de rememoração em contextos mediáticos digitais. Formulado na tese de Valdemir Soares dos Santos Neto, o modelo parte da necessidade de estruturar, em termos analíticos, as competências mnemônicas mobilizadas pelos sujeitos na interação com narrativas sobre o passado. Nesse sentido, o 4M organiza a literacia da memória em um conjunto de dimensões interdependentes que permitem compreender como a memória é evocada, interpretada, transformada e colocada em circulação, especialmente em ambientes marcados pela cultura participativa e pela mediação tecnológica.


=== ''Radical War: Data, Attention and Control in the Twenty-First Century'' (2022, com Matthew Ford) ===
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[[Ficheiro:Radical Way capa.jpg|miniatura|Capa do livro]]
Do ponto de vista estrutural, o modelo é composto por quatro dimensões analíticas, frequentemente associadas a processos como evocação, mediação, mobilização e movimento da memória, que operam de forma articulada na experiência dos sujeitos. Cada uma dessas dimensões corresponde a um nível específico de relação com o passado: desde a ativação de referências mnemônicas até a sua reconfiguração em novos contextos narrativos e mediáticos. O modelo permite, assim, identificar diferentes graus de complexidade na interação com a memória, evidenciando como fatores técnicos, culturais e afetivos influenciam a produção de sentido. Ao considerar essas dimensões de forma integrada, o 4M oferece um quadro analítico capaz de captar a dinâmica processual da memória na contemporaneidade.
''Radical War: Data, Attention and Control in the Twenty-First Century'' (2022), de Andrew Hoskins e Matthew Ford, propõe uma reformulação profunda da compreensão contemporânea da guerra ao introduzir o conceito de “guerra radical”, caracterizada pela integração total entre tecnologias digitais, fluxos de dados e ecologias de atenção. Publicado pela Oxford University Press, o livro argumenta que a proliferação de dispositivos conectados — como smartphones, redes sociais e sistemas algorítmicos — transformou o campo de batalha em um ambiente distribuído e contínuo, no qual a distinção entre combatentes e civis, produtores e consumidores de informação, ou mesmo entre mídia e arma, torna-se progressivamente indistinta. Nesse cenário, a guerra não é mais um evento delimitado, mas um processo permanente, mediado por infraestruturas digitais que permitem a participação de múltiplos atores em tempo real, ampliando o alcance e a complexidade dos conflitos contemporâneos.


A obra estrutura sua análise em torno de três eixos centrais — dados (data), atenção (attention) e controle (control) — demonstrando como esses elementos se articulam para produzir novas formas de poder e violência política. Hoskins e Ford argumentam que os dados gerados continuamente em ambientes digitais alimentam sistemas de vigilância e decisão, enquanto a atenção humana é capturada, direcionada e instrumentalizada como recurso estratégico, transformando usuários comuns em participantes ativos da guerra, seja como disseminadores de informação, seja como alvos ou agentes indiretos. Ao mesmo tempo, o controle emerge como resultado dessas interdependências entre humanos e tecnologias, criando uma ecologia de guerra na qual o conflito é simultaneamente físico, informacional e perceptivo. O livro também enfatiza que essa transformação altera profundamente a memória da guerra, que passa a ser produzida, compartilhada e manipulada em tempo real, consolidando uma visão crítica sobre a militarização da vida cotidiana e o papel central das mídias digitais na reconfiguração da violência no século XX.
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Enquanto instrumento metodológico, o Modelo 4M possibilita a aplicação empírica do conceito de literacia da memória em diversos objetos de estudo, como conteúdos audiovisuais, práticas de cultura de fãs e interações em plataformas digitais. A sua utilização permite analisar não apenas os produtos finais, como vídeos ou narrativas, mas também os processos subjacentes de criação, circulação e recepção, articulando dimensões críticas e interpretativas. Dessa forma, o modelo contribui para a consolidação da literacia da memória como campo de investigação, ao fornecer critérios analíticos que tornam possível examinar, de maneira sistemática, as formas contemporâneas de construção e negociação do passado em ambientes digitais.


== Temas recorrentes == <!--T:17-->
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O modelo analítico organiza-se em quatro dimensões, sendo materialidade evocativa, mobilização da memória, mediação da memória e movimento mnemônico, cada uma composta por indicadores que permitem observar empiricamente as competências mnemônicas mobilizadas pelos sujeitos. Esses indicadores funcionam como categorias operacionais para a análise de conteúdos mediáticos, articulando dimensões narrativas, críticas, participativas e circulatórias da memória, conforme a proposta desenvolvida por [[Valdemir Santos Neto]].


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* memória cultural
{| class="wikitable" style="text-align:left;"
* cultura de massa
! style="background-color:#e6eef7;" | Dimensão
* modernidade e esquecimento
! style="background-color:#e6eef7;" | Indicadores de análise
* urbanismo
|-
* mídia e representação
| '''Materialidade evocativa''' ||
 
* Análise crítica do conteúdo 
== Recepção crítica == <!--T:19-->
* Domínio curatorial 
 
* Recursos de intertextualidade e paratextualidade 
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* Recursos narrativos mnemônicos
Os escritos de Andrew Hoskins são frequentemente reconhecidos por consolidar o campo dos digital memory studies, mas a recepção crítica aponta tensões importantes. Por um lado, autores destacam que sua abordagem, especialmente em [https://www.routledge.com/Digital-Memory-Studies-Media-Pasts-in-Transition/Hoskins/p/book/9781138639386 ''Digital Memory Studies: Media Pasts in Transition''], que oferece uma agenda teórica robusta ao articular memória, mídia e fenômenos como big data e plataformas digitais, ampliando o escopo tradicional dos estudos de memória.<ref>Hoskins, Andrew (ed.). ''Digital Memory Studies: Media Pasts in Transition''. Routledge, 2017.</ref> Por outro, críticos observam que essa ampliação vem acompanhada de certa dispersão conceitual: a memória torna-se “difusa, intangível” e excessivamente abrangente, o que pode diluir sua precisão analítica e dificultar delimitações metodológicas claras.<ref>Synenko, Joshua. Review of ''Digital Memory Studies: Media Pasts in Transition''. 2019.</ref> Além disso, há questionamentos sobre o caráter programático de sua obra, vista mais como mapeamento de problemas do que como proposição de soluções empíricas consistentes, o que insere Hoskins em uma tradição teórica ainda em consolidação.<ref>Adriaansen, Robbert-Jan. “Collective memory and social media: critical review”. 2025.</ref>
|-
 
| '''Mobilização da memória''' ||
Uma segunda linha crítica incide sobre o próprio diagnóstico de Hoskins acerca da memória digital. Sua visão, frequentemente caracterizada como pessimista, sustenta que o ambiente digital desestabiliza profundamente as fronteiras temporais e espaciais da memória coletiva.<ref>Mandolessi, Silvana. “Memory in the digital age”. 2024.</ref> Embora influente, essa tese é contestada por estudiosos que consideram que conceitos como “memória conectiva” tendem a superestimar a fluidez e a horizontalidade das redes digitais, negligenciando assimetrias de poder, controle algorítmico e fragmentação informacional.<ref>“Connective and Disjunctive Memory”. Verfassungsblog, 2025.</ref> Nesse sentido, críticas recentes sugerem que a teoria de Hoskins precisa ser complementada por abordagens mais materialistas e políticas, capazes de explicar como infraestruturas tecnológicas e interesses corporativos moldam aquilo que pode ou não ser lembrado. Em síntese, sua obra é central, mas permanece objeto de debate quanto ao seu alcance explicativo e ao equilíbrio entre inovação conceitual e rigor empírico.
* Estímulo à compreensão crítica 
* Interatividade e engajamento 
* Reconhecimento e questionamento de ideologias subjacentes 
* Hibridismo temporal e conexão entre passado e presente
|-
| '''Mediação da memória''' ||
* Ativismo digital no contexto da memória
* Cocriação e construção coletiva da memória 
* Remixagem de conteúdos mnemônicos
|-
| '''Movimento mnemônico''' ||
* Reflexão crítica sobre o processo de circulação do conteúdo 
* Interação e participação do público no processo rememorativo 
* Fluxo temporal da rememoração 
* Riscos e potencialidades na reelaboração da memória
|}


== Conferências == <!--T:24-->
== Material pedagógico == <!--T:24-->


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<!--T:25-->
* [[File:film.png|16px|link=]] [https://www.youtube.com/watch?v=jb_BdxmnWnk ''In Conversation with Andrew Hoskins and Ben O'Loughlin'' (2021)]<ref>Vídeo publicado no YouTube em 2021, entrevista sobre mídia e memória digital. :contentReference[oaicite:0]{index=0}</ref>
* [[File:film.png|16px|link=]] [https://www.youtube.com/watch?v=R9sAMhgvSLc&t=656s ''O Que é Literacia da Memória? De The Crown às Ruas de Game of Thrones (ft. Valdemir Neto)'']<ref>Vídeo publicado no YouTube, apresentação e discussão do conceito de literacia da memória em contexto de cultura audiovisual e digital.</ref>
 
* [[File:film.png|16px|link=]] [https://www.youtube.com/watch?v=lS5KUXOCrqE ''The War Feed: War in Plain Sight'' (2023)]<ref>Palestra aberta de Andrew Hoskins publicada online cerca de 2023. :contentReference[oaicite:1]{index=1}</ref>


* [[File:film.png|16px|link=]] [https://www.youtube.com/watch?v=wwCSmmvduA8 ''Memory, Narrative Designs, and Strategies of Preservation'' (2025)]<ref>Keynote recente disponível em canal institucional (IIT Madras). :contentReference[oaicite:2]{index=2}</ref>
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* [[File:film.png|16px|link=]] [https://www.youtube.com/watch?v=U2F_VZvifgc&t=35s&pp=ygUUbGl0ZXJhY2lhIGRhIG1lbW9yaWE%3D ''DEFESA PÚBLICA DE TESE | Literacia da Memória e Cultura de Fãs'']<ref>Vídeo publicado no YouTube, defesa pública da tese de doutoramento sobre literacia da memória e cultura de fãs.</ref>


* [[File:film.png|16px|link=]] [https://www.youtube.com/watch?v=4xZJ1wq0DoY ''AI and Memory – Interview with Andrew Hoskins'' (2024)]<ref>Entrevista recente sobre inteligência artificial e memória digital (YouTube).</ref>
<!--T:47-->
* [[File:film.png|16px|link=]] [https://www.youtube.com/watch?v=xBiyHauDz-k&t=9235s ''Aula: Introdução ao livro Digital Memory Studies (Andrew Hoskins)'']<ref>Vídeo publicado no YouTube, aula introdutória sobre o campo dos estudos da memória digital com base na obra de Andrew Hoskins.</ref>


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== Referências ==
== Referências ==
<references />
<references />


== Artigos publicados == <!--T:24-->
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{| class="wikitable sortable"
! Ano !! Autor(es) !! Título !! Revista
|-
| 1984 || Huyssen, Andreas || [https://www.jstor.org/stable/488352 Mapping the Postmodern] || New German Critique
|-
| 2000 || Huyssen, Andreas || [https://read.dukeupress.edu/public-culture/article-abstract/12/1/21/31905/Present-Pasts-Media-Politics-Amnesia Present Pasts: Media, Politics, Amnesia] || Public Culture
|-
| 2002 || Huyssen, Andreas || [https://read.dukeupress.edu/modernism-modernity/article-abstract/9/3/363/60248/High-Low-in-an-Expanded-Field High/Low in an Expanded Field] || Modernism/Modernity
|-
| 2006 || Huyssen, Andreas || [https://www.jstor.org/stable/25482818 Nostalgia for Ruins] || (revista não especificada – acesso via JSTOR)
|-
| 2006 || Huyssen, Andreas || [https://read.dukeupress.edu/books/book/1595/chapter-abstract/185599/Diaspora-and-Nation-Migration-into-Other-Pasts Diaspora and Nation: Migration into Other Pasts] || (capítulo de livro – Duke University Press)
|-
| 2007 || Huyssen, Andreas || [https://www.jstor.org/stable/25592234 Geographies of Modernism in a Globalizing World] || (revista não especificada – acesso via JSTOR)
|-
| 2008 || Huyssen, Andreas || [https://www.jstor.org/stable/25592240 Memory culture at an impasse: Memorials in Berlin and New York] || (revista não especificada – acesso via JSTOR)
|-
| 2010 || Huyssen, Andreas || [https://www.jstor.org/stable/40928341 German Painting in the Cold War] || (revista não especificada – acesso via JSTOR)
|-
| 2011 || Huyssen, Andreas || [https://www.jstor.org/stable/41440741 International Human Rights and the Politics of Memory] || (revista não especificada – acesso via JSTOR)
|-
| 2016 || Huyssen, Andreas || [https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1470412916641558 Memory things and their temporality] || Theory, Culture & Society
|}


== Principais conceitos == <!--T:27-->
== Conceitos relacionados == <!--T:27-->


<!--T:28-->
<!--T:28-->
Linha 178: Linha 185:
* Erll, Astrid. ''Memory in Culture''. Palgrave Macmillan, 2011.
* Erll, Astrid. ''Memory in Culture''. Palgrave Macmillan, 2011.


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<!--T:32-->
{| class="caixa-erro-final"
{| class="caixa-erro-final"
|-
|-
Linha 185: Linha 192:
|}
|}


<!--T:31-->
== Ligações externas ==
== Ligações externas ==
[[Categoria:Críticos literários da Alemanha]]
[[Categoria:Críticos literários da Alemanha]]
[[Categoria:Teóricos da cultura]]
[[Categoria:Teóricos da cultura]]
[[Categoria:Professores da Universidade Columbia]]<!--T:31-->
[[Categoria:Professores da Universidade Columbia]]


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Edição atual tal como às 11h27min de 4 de maio de 2026


A literacia da memória é um conceito emergente situado na interseção entre os estudos da memória e as literacias mediáticas, que procura compreender de que modo os indivíduos interpretam, constroem e participam na produção de narrativas sobre o passado em contextos contemporâneos. A emergência do conceito pode ser associado ao trabalho de Pedro Lopes, que a definiu como a capacidade crítica de analisar representações mediadas da memória, particularmente no âmbito da ficção audiovisual, destacando o seu papel na construção da memória social. Posteriormente, o conceito foi desenvolvido e aprofundado por Valdemir Santos Neto, que o enquadrou nos ambientes digitais e nas dinâmicas de circulação contemporâneas, propondo uma abordagem mais estruturada e operacional.

Literacia da Memória
Definição Capacidade crítica de compreender, interpretar e produzir práticas de memória em contextos mediáticos e digitais.
Área Estudos da memória
Estudos da mídia
Comunicação
Subáreas Memória cultural
Memória digital
Literacia mediática
Contexto Emergente no contexto da cultura digital e da mediação tecnológica da memória (século XXI).
Principais autores Pedro Lopes
Valdemir Santos Neto
Conceitos relacionados Memória coletiva
Memória cultural
Arquivamento digital
Cultura participativa
Aplicações Educação
Análise mediática
Patrimônio digital
Cultura digital
Palavras-chave memória digital, mediação, arquivo, cultura digital
Estado Conceito emergente em desenvolvimento teórico

Ancorada teoricamente em autores como Maurice Halbwachs e Andrew Hoskins, a literacia da memória parte do princípio de que a memória é socialmente construída, mediada por dispositivos culturais e sujeita a disputas interpretativas. Nesse sentido, envolve um conjunto de competências que permitem reconhecer a natureza seletiva e narrativa das representações do passado, avaliar criticamente a sua circulação em media tradicionais e digitais, e compreender os processos pelos quais a memória é continuamente reconfigurada em contextos marcados pela participação dos utilizadores, pela lógica algorítmica e pela transformação tecnológica.

Conceito

Primeiros estudos

O termo literacia da memória surge no contexto recente de desenvolvimento dos Memory Studies em articulação com os estudos de media e comunicação, não possuindo uma origem clássica consolidada nem um uso estabilizado ao longo do século XX. A sua formulação enquanto conceito explícito pode ser identificada de forma mais sistemática no trabalho de Pedro Lopes, nomeadamente no artigo Literacia da memória: ficção audiovisual e o seu contributo para a construção da memória social[1], publicado na revista Comunicação Pública. Nesse texto, o autor apresenta o termo como uma proposta conceptual inicial, explicitamente descrita como uma “primeira abordagem”, indicando que não se trata de um conceito previamente estabelecido, mas sim de uma tentativa de nomear e estruturar um campo emergente. A importância desse trabalho reside precisamente no facto de oferecer uma das primeiras definições sistematizadas do termo em contexto académico, ancorando-o na análise da relação entre memória social e media audiovisuais.

No desenvolvimento do conceito, Lopes parte da constatação de que, nas sociedades contemporâneas, a construção da memória social é fortemente mediada por produtos culturais, em particular pela ficção audiovisual (cinema e televisão). A literacia da memória é, assim, definida como a capacidade de interpretar criticamente essas representações do passado, tendo em conta que elas não são neutras nem meramente informativas, mas resultam de processos de seleção, enquadramento e narrativa. O autor sublinha que essas representações operam num campo de tensões entre diferentes agentes sociais, interesses e regimes de memória, o que implica que o público desenvolva competências específicas para reconhecer a dimensão construída, plural e, por vezes, conflitual da memória. Neste sentido, o conceito aproxima-se de outras literacias críticas, como a literacia midiática, mas distingue-se por incidir especificamente sobre a relação entre media e memória histórica, enfatizando a necessidade de compreender como o passado é continuamente reconfigurado no presente através de dispositivos culturais e mediáticos.

Do ponto de vista genealógico e teórico, a literacia da memória, tal como proposta por Lopes, insere-se numa dupla tradição. Por um lado, dialoga diretamente com os fundamentos dos estudos da memória, nomeadamente a noção de memória coletiva formulada por Maurice Halbwachs e posteriormente desenvolvida em termos de memória cultural por autores como Jan Assmann, que enfatizam o caráter socialmente construído e institucionalmente mediado da memória. Por outro lado, articula-se com a evolução do conceito de literacia no âmbito dos New Literacy Studies, que expandiram a noção de literacia para além da competência técnica de leitura e escrita, incorporando dimensões críticas, contextuais e multimodais. A literacia da memória emerge, assim, como um conceito situado na interseção destes dois campos, procurando responder a transformações contemporâneas marcadas pela centralidade dos media na produção de narrativas históricas. Apesar dessa fundamentação teórica, permanece um conceito em consolidação, cuja utilização ainda é relativamente circunscrita e dependente de contextos específicos de investigação e aplicação.

Consolidação e desenvolvimento conceptual

A consolidação do conceito de literacia da memória ocorre no âmbito de investigações recentes que procuram sistematizar a articulação entre os Memory Studies e a literacia mediática em contextos digitais. Um contributo relevante para esse processo encontra-se na tese de Valdemir Santos Neto, que propõe um desenvolvimento teórico e metodológico mais estruturado do conceito a partir das formulações iniciais de Lopes. Nesta investigação, a literacia da memória é tratada como um campo em construção, cujo objetivo é responder às transformações contemporâneas nos modos de produção, circulação e interpretação da memória em ambientes mediados por tecnologias digitais.

A tese insere o conceito num contexto marcado pela intensificação da mediação tecnológica da memória, caracterizado por processos como a plataformização, a lógica algorítmica e a circulação contínua de conteúdos em redes sociais. Neste cenário, a memória deixa de estar exclusivamente associada a instituições tradicionais (como arquivos ou museus) e passa a ser continuamente reconfigurada em ambientes digitais, nos quais os sujeitos desempenham um papel ativo na sua produção e ressignificação. A literacia da memória é, assim, conceptualizada como um conjunto de competências que permite compreender criticamente esses processos, incluindo a capacidade de interpretar representações mediadas do passado, reconhecer a sua natureza construída e participar na sua circulação e transformação.

No plano conceptual, a investigação de Santos Neto propõe uma articulação entre diferentes tradições teóricas, incluindo contributos dos estudos da memória (como Maurice Halbwachs, Andreas Huyssen e Alison Landsberg), dos estudos da cultura de fãs e dos media, bem como das teorias da literacia mediática. A partir dessa articulação, o conceito é desenvolvido como uma ferramenta analítica capaz de captar a complexidade das práticas de rememoração na cultura digital, particularmente em contextos de participação ativa dos utilizadores, como a produção e circulação de conteúdos audiovisuais.

Um dos principais avanços da tese reside na operacionalização do conceito através de um modelo analítico específico, designado como Modelo 4M, que organiza as competências mnemônicas em dimensões interdependentes. Estas dimensões permitem analisar de forma estruturada os processos pelos quais os indivíduos evocam, mobilizam, mediam e transformam a memória em ambientes digitais, articulando aspectos técnicos, afetivos e interpretativos. Este modelo constitui uma tentativa de sistematizar o conceito de literacia da memória, oferecendo critérios analíticos aplicáveis à investigação empírica e contribuindo para a sua consolidação enquanto ferramenta metodológica.

Principais obras

Literacia da Memória e Cultura de fãs: a linguagem audiovisual dos edits no TikTok sobre o universo ficcional de The Crown (2025, Valdemir Santos Neto)

Capa do livro

Literacia da Memória e Cultura de fãs: a linguagem audiovisual dos edits no TikTok sobre o universo ficcional de The Crown (2025), tese de Valdemir Santos Neto, representa um dos primeiros esforços sistemáticos de consolidação do conceito de literacia da memória no campo académico. Inserida no âmbito dos Memory Studies e em diálogo direto com a literacia mediática, a investigação parte do reconhecimento de que o conceito, anteriormente proposto de forma inicial por Lopes, carecia de aprofundamento teórico, delimitação conceptual e, sobretudo, de uma operacionalização metodológica. Nesse sentido, a tese não apenas mobiliza o conceito, mas procura estruturá-lo como um campo analítico emergente, respondendo a lacunas identificadas na literatura sobre memória em contextos digitais.

Um dos contributos centrais do trabalho reside na sua capacidade de integrar, de forma coerente, diferentes tradições teóricas que até então operavam de maneira relativamente dispersa. A tese articula os fundamentos da memória coletiva, desenvolvidos por Maurice Halbwachs, com abordagens contemporâneas sobre mediação da memória e cultura digital, incluindo contributos de autores como Andreas Huyssen e Alison Landsberg. A essa base soma-se o diálogo com os estudos da cultura de fãs e da convergência mediática, permitindo enquadrar as práticas participativas como formas ativas de produção e circulação da memória. Essa articulação teórica contribui para consolidar a literacia da memória como um conceito situado na interseção entre memória, media e cultura digital, superando abordagens fragmentadas e oferecendo um enquadramento interdisciplinar mais robusto.

No plano empírico, a tese reforça essa consolidação ao demonstrar, através da análise da série The Crown e das práticas de remixagem em TikTok, como a memória coletiva é continuamente reconfigurada por práticas culturais mediadas. Os edits produzidos por fãs são analisados como dispositivos mnemônicos que operam simultaneamente em níveis afetivos, narrativos e interpretativos, evidenciando que a memória, no contexto digital, é construída através de processos de seleção, recontextualização e circulação. Ao deslocar o foco das instituições tradicionais para os utilizadores e suas práticas criativas, a investigação contribui para redefinir o objeto de estudo da memória, incorporando a dimensão participativa e algorítmica das plataformas digitais como elementos centrais na análise contemporânea.

A consolidação do conceito torna-se particularmente evidente na proposta metodológica desenvolvida pela tese. A partir do modelo de Análise da Qualidade no Audiovisual, o autor elabora o chamado Modelo 4M, que estrutura a literacia da memória em dimensões analíticas interdependentes. Este modelo permite operacionalizar o conceito, transformando-o de uma formulação teórica abstrata em uma ferramenta aplicável à investigação empírica. Ao definir critérios e categorias de análise das competências mnemônicas — relacionadas à evocação, mediação, mobilização e circulação da memória —, a tese oferece um quadro metodológico que possibilita examinar de forma sistemática as práticas de rememoração em ambientes digitais.

Desdobramentos conceptuais da literacia da memória

Os desdobramentos conceituais da literacia da memória, a partir da tese de Valdemir Soares dos Santos Neto, podem ser organizados como categorias analíticas emergentes que ajudam a explicar como a memória é construída, mediada e disputada na cultura digital. Esses desdobramentos não são necessariamente “conceitos clássicos”, mas sim extensões operacionais do conceito central, derivadas da análise empírica (fandom, edits, plataformas).

Guardiões da memória

O conceito de guardiões da memória designa a função exercida por sujeitos que, no interior de ecossistemas mediáticos e culturais, participam ativamente na preservação, regulação e legitimação das narrativas sobre o passado. No âmbito da literacia da memória, o termo não se refere apenas a agentes institucionais, mas sobretudo a atores distribuídos, como membros de comunidades de fãs, que mobilizam competências mnemônicas para avaliar, reinterpretar e estabilizar sentidos atribuídos à memória coletiva. Trata-se, portanto, de uma noção conceitual que descreve a atuação de sujeitos capazes de intervir nos processos de construção da memória, operando como instâncias de validação simbólica em contextos marcados pela mediação digital. Os guardiões não apenas reproduzem conteúdos, mas exercem uma função normativa e interpretativa, contribuindo para a manutenção, disputa e reconfiguração das representações do passado em circulação social.

Competências mnemônicas

O conceito de competências mnemônicas refere-se ao conjunto de capacidades cognitivas, interpretativas e críticas mobilizadas pelos sujeitos na compreensão, produção e circulação de narrativas sobre o passado. No âmbito da literacia da memória, essas competências ultrapassam a simples recordação de eventos, envolvendo a habilidade de reconhecer a natureza mediada da memória, identificar processos de seleção e enquadramento, e avaliar a verossimilhança e os usos sociais das representações mnemônicas. Enquanto categoria analítica, as competências mnemônicas articulam dimensões cognitivas, afetivas e mediáticas, permitindo compreender como os indivíduos interpretam e reconfiguram o passado em contextos contemporâneos marcados pela circulação digital de conteúdos. Nesse sentido, constituem o núcleo operacional da literacia da memória, tornando possível analisar empiricamente os diferentes níveis de leitura crítica e participação dos sujeitos nos processos de construção da memória coletiva.

Remixagem mnemônica

O conceito de remixagem mnemônica refere-se ao processo de reconfiguração do passado por meio da recombinação de fragmentos de memória em novos arranjos narrativos, especialmente em ambientes mediáticos digitais. No âmbito da literacia da memória, a remixagem mnemônica envolve a apropriação de conteúdos preexistentes, como imagens, vídeos ou narrativas históricas, que são editados, reorganizados e ressignificados para produzir novas interpretações sobre o passado. Trata-se de uma prática que evidencia o caráter não fixo da memória, destacando a sua natureza processual, mediada e culturalmente situada. Enquanto categoria analítica, a remixagem mnemônica permite compreender como sujeitos, particularmente em contextos de cultura participativa, atuam como agentes ativos na construção da memória coletiva, articulando dimensões estéticas, afetivas e interpretativas na produção de sentidos em circulação social.


Abordagens metodológicas

A sistematização das abordagens metodológicas no âmbito da literacia da memória tem como objetivo organizar, de forma coerente e operacional, os diferentes procedimentos analíticos utilizados para compreender as práticas contemporâneas de construção, mediação e circulação da memória. Nesse contexto, destaca-se a proposta de modelos analíticos que permitem observar não apenas os produtos culturais em si, mas também os processos de criação, circulação e recepção, evidenciando as competências mnemônicas mobilizadas pelos sujeitos. Tal sistematização contribui para transformar a literacia da memória em uma ferramenta metodológica aplicável, possibilitando a investigação estruturada das dinâmicas de rememoração em ambientes digitais e consolidando o campo enquanto domínio analítico em desenvolvimento.

Modelo 4M

Modelo interseccional proposto por Santos Neto (2025)

O Modelo 4M constitui uma proposta metodológica desenvolvida no âmbito da literacia da memória, com o objetivo de operacionalizar a análise das práticas de rememoração em contextos mediáticos digitais. Formulado na tese de Valdemir Soares dos Santos Neto, o modelo parte da necessidade de estruturar, em termos analíticos, as competências mnemônicas mobilizadas pelos sujeitos na interação com narrativas sobre o passado. Nesse sentido, o 4M organiza a literacia da memória em um conjunto de dimensões interdependentes que permitem compreender como a memória é evocada, interpretada, transformada e colocada em circulação, especialmente em ambientes marcados pela cultura participativa e pela mediação tecnológica.

Do ponto de vista estrutural, o modelo é composto por quatro dimensões analíticas, frequentemente associadas a processos como evocação, mediação, mobilização e movimento da memória, que operam de forma articulada na experiência dos sujeitos. Cada uma dessas dimensões corresponde a um nível específico de relação com o passado: desde a ativação de referências mnemônicas até a sua reconfiguração em novos contextos narrativos e mediáticos. O modelo permite, assim, identificar diferentes graus de complexidade na interação com a memória, evidenciando como fatores técnicos, culturais e afetivos influenciam a produção de sentido. Ao considerar essas dimensões de forma integrada, o 4M oferece um quadro analítico capaz de captar a dinâmica processual da memória na contemporaneidade.

Enquanto instrumento metodológico, o Modelo 4M possibilita a aplicação empírica do conceito de literacia da memória em diversos objetos de estudo, como conteúdos audiovisuais, práticas de cultura de fãs e interações em plataformas digitais. A sua utilização permite analisar não apenas os produtos finais, como vídeos ou narrativas, mas também os processos subjacentes de criação, circulação e recepção, articulando dimensões críticas e interpretativas. Dessa forma, o modelo contribui para a consolidação da literacia da memória como campo de investigação, ao fornecer critérios analíticos que tornam possível examinar, de maneira sistemática, as formas contemporâneas de construção e negociação do passado em ambientes digitais.

O modelo analítico organiza-se em quatro dimensões, sendo materialidade evocativa, mobilização da memória, mediação da memória e movimento mnemônico, cada uma composta por indicadores que permitem observar empiricamente as competências mnemônicas mobilizadas pelos sujeitos. Esses indicadores funcionam como categorias operacionais para a análise de conteúdos mediáticos, articulando dimensões narrativas, críticas, participativas e circulatórias da memória, conforme a proposta desenvolvida por Valdemir Santos Neto.

Dimensão Indicadores de análise
Materialidade evocativa
  • Análise crítica do conteúdo
  • Domínio curatorial
  • Recursos de intertextualidade e paratextualidade
  • Recursos narrativos mnemônicos
Mobilização da memória
  • Estímulo à compreensão crítica
  • Interatividade e engajamento
  • Reconhecimento e questionamento de ideologias subjacentes
  • Hibridismo temporal e conexão entre passado e presente
Mediação da memória
  • Ativismo digital no contexto da memória
  • Cocriação e construção coletiva da memória
  • Remixagem de conteúdos mnemônicos
Movimento mnemônico
  • Reflexão crítica sobre o processo de circulação do conteúdo
  • Interação e participação do público no processo rememorativo
  • Fluxo temporal da rememoração
  • Riscos e potencialidades na reelaboração da memória

Material pedagógico

Referências

  1. Comunicação Pública
  2. Vídeo publicado no YouTube, apresentação e discussão do conceito de literacia da memória em contexto de cultura audiovisual e digital.
  3. Vídeo publicado no YouTube, defesa pública da tese de doutoramento sobre literacia da memória e cultura de fãs.
  4. Vídeo publicado no YouTube, aula introdutória sobre o campo dos estudos da memória digital com base na obra de Andrew Hoskins.


Conceitos relacionados

Referências

  • Columbia University, Department of Germanic Languages. Andreas Huyssen. Disponível em: https://germanic.columbia.edu/content/andreas-huyssen. Acesso em 19 de abril de 2026.
  • Huyssen, Andreas. After the Great Divide: Modernism, Mass Culture, Postmodernism. Indiana University Press, 1986.
  • Huyssen, Andreas. Twilight Memories: Marking Time in a Culture of Amnesia. Routledge, 1995.
  • Huyssen, Andreas. Present Pasts: Urban Palimpsests and the Politics of Memory. Stanford University Press, 2003.
  • Assmann, Aleida. Cultural Memory and Western Civilization. Cambridge University Press, 2011.
  • Erll, Astrid. Memory in Culture. Palgrave Macmillan, 2011.
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