Literacia da memória
A literacia da memória é um conceito emergente situado na interseção entre os estudos da memória e as literacias mediáticas, que procura compreender de que modo os indivíduos interpretam, constroem e participam na produção de narrativas sobre o passado em contextos contemporâneos. A emergência do conceito pode ser associado ao trabalho de Pedro Lopes, que a definiu como a capacidade crítica de analisar representações mediadas da memória, particularmente no âmbito da ficção audiovisual, destacando o seu papel na construção da memória social. Posteriormente, o conceito foi desenvolvido e aprofundado por Valdemir Santos Neto, que o enquadrou nos ambientes digitais e nas dinâmicas de circulação contemporâneas, propondo uma abordagem mais estruturada e operacional.
| Literacia da Memória | |
|---|---|
| Definição | Capacidade crítica de compreender, interpretar e produzir práticas de memória em contextos mediáticos e digitais. |
| Área | Estudos da memória Estudos da mídia Comunicação |
| Subáreas | Memória cultural Memória digital Literacia mediática |
| Contexto | Emergente no contexto da cultura digital e da mediação tecnológica da memória (século XXI). |
| Principais autores | Pedro Lopes Valdemir Santos Neto |
| Conceitos relacionados | Memória coletiva Memória cultural Arquivamento digital Cultura participativa |
| Aplicações | Educação Análise mediática Patrimônio digital Cultura digital |
| Palavras-chave | memória digital, mediação, arquivo, cultura digital |
| Estado | Conceito emergente em desenvolvimento teórico |
Ancorada teoricamente em autores como Maurice Halbwachs e Andrew Hoskins, a literacia da memória parte do princípio de que a memória é socialmente construída, mediada por dispositivos culturais e sujeita a disputas interpretativas. Nesse sentido, envolve um conjunto de competências que permitem reconhecer a natureza seletiva e narrativa das representações do passado, avaliar criticamente a sua circulação em media tradicionais e digitais, e compreender os processos pelos quais a memória é continuamente reconfigurada em contextos marcados pela participação dos utilizadores, pela lógica algorítmica e pela transformação tecnológica.
Conceito
Primeiros estudos
O termo literacia da memória surge no contexto recente de desenvolvimento dos Memory Studies em articulação com os estudos de media e comunicação, não possuindo uma origem clássica consolidada nem um uso estabilizado ao longo do século XX. A sua formulação enquanto conceito explícito pode ser identificada de forma mais sistemática no trabalho de Pedro Lopes, nomeadamente no artigo Literacia da memória: ficção audiovisual e o seu contributo para a construção da memória social[1], publicado na revista Comunicação Pública. Nesse texto, o autor apresenta o termo como uma proposta conceptual inicial, explicitamente descrita como uma “primeira abordagem”, indicando que não se trata de um conceito previamente estabelecido, mas sim de uma tentativa de nomear e estruturar um campo emergente. A importância desse trabalho reside precisamente no facto de oferecer uma das primeiras definições sistematizadas do termo em contexto académico, ancorando-o na análise da relação entre memória social e media audiovisuais.
No desenvolvimento do conceito, Lopes parte da constatação de que, nas sociedades contemporâneas, a construção da memória social é fortemente mediada por produtos culturais, em particular pela ficção audiovisual (cinema e televisão). A literacia da memória é, assim, definida como a capacidade de interpretar criticamente essas representações do passado, tendo em conta que elas não são neutras nem meramente informativas, mas resultam de processos de seleção, enquadramento e narrativa. O autor sublinha que essas representações operam num campo de tensões entre diferentes agentes sociais, interesses e regimes de memória, o que implica que o público desenvolva competências específicas para reconhecer a dimensão construída, plural e, por vezes, conflitual da memória. Neste sentido, o conceito aproxima-se de outras literacias críticas, como a literacia midiática, mas distingue-se por incidir especificamente sobre a relação entre media e memória histórica, enfatizando a necessidade de compreender como o passado é continuamente reconfigurado no presente através de dispositivos culturais e mediáticos.
Do ponto de vista genealógico e teórico, a literacia da memória, tal como proposta por Lopes, insere-se numa dupla tradição. Por um lado, dialoga diretamente com os fundamentos dos estudos da memória, nomeadamente a noção de memória coletiva formulada por Maurice Halbwachs e posteriormente desenvolvida em termos de memória cultural por autores como Jan Assmann, que enfatizam o caráter socialmente construído e institucionalmente mediado da memória. Por outro lado, articula-se com a evolução do conceito de literacia no âmbito dos New Literacy Studies, que expandiram a noção de literacia para além da competência técnica de leitura e escrita, incorporando dimensões críticas, contextuais e multimodais. A literacia da memória emerge, assim, como um conceito situado na interseção destes dois campos, procurando responder a transformações contemporâneas marcadas pela centralidade dos media na produção de narrativas históricas. Apesar dessa fundamentação teórica, permanece um conceito em consolidação, cuja utilização ainda é relativamente circunscrita e dependente de contextos específicos de investigação e aplicação.
Consolidação e desenvolvimento conceptual
A consolidação do conceito de literacia da memória ocorre no âmbito de investigações recentes que procuram sistematizar a articulação entre os Memory Studies e a literacia mediática em contextos digitais. Um contributo relevante para esse processo encontra-se na tese de Valdemir Santos Neto, que propõe um desenvolvimento teórico e metodológico mais estruturado do conceito a partir das formulações iniciais de Lopes. Nesta investigação, a literacia da memória é tratada como um campo em construção, cujo objetivo é responder às transformações contemporâneas nos modos de produção, circulação e interpretação da memória em ambientes mediados por tecnologias digitais.
A tese insere o conceito num contexto marcado pela intensificação da mediação tecnológica da memória, caracterizado por processos como a plataformização, a lógica algorítmica e a circulação contínua de conteúdos em redes sociais. Neste cenário, a memória deixa de estar exclusivamente associada a instituições tradicionais (como arquivos ou museus) e passa a ser continuamente reconfigurada em ambientes digitais, nos quais os sujeitos desempenham um papel ativo na sua produção e ressignificação. A literacia da memória é, assim, conceptualizada como um conjunto de competências que permite compreender criticamente esses processos, incluindo a capacidade de interpretar representações mediadas do passado, reconhecer a sua natureza construída e participar na sua circulação e transformação.
No plano conceptual, a investigação de Santos Neto propõe uma articulação entre diferentes tradições teóricas, incluindo contributos dos estudos da memória (como Maurice Halbwachs, Andreas Huyssen e Alison Landsberg), dos estudos da cultura de fãs e dos media, bem como das teorias da literacia mediática. A partir dessa articulação, o conceito é desenvolvido como uma ferramenta analítica capaz de captar a complexidade das práticas de rememoração na cultura digital, particularmente em contextos de participação ativa dos utilizadores, como a produção e circulação de conteúdos audiovisuais.
Um dos principais avanços da tese reside na operacionalização do conceito através de um modelo analítico específico, designado como Modelo 4M, que organiza as competências mnemônicas em dimensões interdependentes. Estas dimensões permitem analisar de forma estruturada os processos pelos quais os indivíduos evocam, mobilizam, mediam e transformam a memória em ambientes digitais, articulando aspectos técnicos, afetivos e interpretativos. Este modelo constitui uma tentativa de sistematizar o conceito de literacia da memória, oferecendo critérios analíticos aplicáveis à investigação empírica e contribuindo para a sua consolidação enquanto ferramenta metodológica.
Principais obras
Literacia da Memória e Cultura de fãs: a linguagem audiovisual dos edits no TikTok sobre o universo ficcional de The Crown (2025, Valdemir Santos Neto)

Literacia da Memória e Cultura de fãs: a linguagem audiovisual dos edits no TikTok sobre o universo ficcional de The Crown (2025), tese de Valdemir Santos Neto, representa um dos primeiros esforços sistemáticos de consolidação do conceito de literacia da memória no campo académico. Inserida no âmbito dos Memory Studies e em diálogo direto com a literacia mediática, a investigação parte do reconhecimento de que o conceito, anteriormente proposto de forma inicial por Lopes, carecia de aprofundamento teórico, delimitação conceptual e, sobretudo, de uma operacionalização metodológica. Nesse sentido, a tese não apenas mobiliza o conceito, mas procura estruturá-lo como um campo analítico emergente, respondendo a lacunas identificadas na literatura sobre memória em contextos digitais.
Um dos contributos centrais do trabalho reside na sua capacidade de integrar, de forma coerente, diferentes tradições teóricas que até então operavam de maneira relativamente dispersa. A tese articula os fundamentos da memória coletiva, desenvolvidos por Maurice Halbwachs, com abordagens contemporâneas sobre mediação da memória e cultura digital, incluindo contributos de autores como Andreas Huyssen e Alison Landsberg. A essa base soma-se o diálogo com os estudos da cultura de fãs e da convergência mediática, permitindo enquadrar as práticas participativas como formas ativas de produção e circulação da memória. Essa articulação teórica contribui para consolidar a literacia da memória como um conceito situado na interseção entre memória, media e cultura digital, superando abordagens fragmentadas e oferecendo um enquadramento interdisciplinar mais robusto.
No plano empírico, a tese reforça essa consolidação ao demonstrar, através da análise da série The Crown e das práticas de remixagem em TikTok, como a memória coletiva é continuamente reconfigurada por práticas culturais mediadas. Os edits produzidos por fãs são analisados como dispositivos mnemônicos que operam simultaneamente em níveis afetivos, narrativos e interpretativos, evidenciando que a memória, no contexto digital, é construída através de processos de seleção, recontextualização e circulação. Ao deslocar o foco das instituições tradicionais para os utilizadores e suas práticas criativas, a investigação contribui para redefinir o objeto de estudo da memória, incorporando a dimensão participativa e algorítmica das plataformas digitais como elementos centrais na análise contemporânea.
A consolidação do conceito torna-se particularmente evidente na proposta metodológica desenvolvida pela tese. A partir do modelo de Análise da Qualidade no Audiovisual, o autor elabora o chamado Modelo 4M, que estrutura a literacia da memória em dimensões analíticas interdependentes. Este modelo permite operacionalizar o conceito, transformando-o de uma formulação teórica abstrata em uma ferramenta aplicável à investigação empírica. Ao definir critérios e categorias de análise das competências mnemônicas — relacionadas à evocação, mediação, mobilização e circulação da memória —, a tese oferece um quadro metodológico que possibilita examinar de forma sistemática as práticas de rememoração em ambientes digitais.
Desdobramentos conceptuais da literacia da memória
Os desdobramentos conceituais da literacia da memória, a partir da tese de Valdemir Soares dos Santos Neto, podem ser organizados como categorias analíticas emergentes que ajudam a explicar como a memória é construída, mediada e disputada na cultura digital. Esses desdobramentos não são necessariamente “conceitos clássicos”, mas sim extensões operacionais do conceito central, derivadas da análise empírica (fandom, edits, plataformas).
Guardiões da memória
O conceito de guardiões da memória designa a função exercida por sujeitos que, no interior de ecossistemas mediáticos e culturais, participam ativamente na preservação, regulação e legitimação das narrativas sobre o passado. No âmbito da literacia da memória, o termo não se refere apenas a agentes institucionais, mas sobretudo a atores distribuídos, como membros de comunidades de fãs, que mobilizam competências mnemônicas para avaliar, reinterpretar e estabilizar sentidos atribuídos à memória coletiva. Trata-se, portanto, de uma noção conceitual que descreve a atuação de sujeitos capazes de intervir nos processos de construção da memória, operando como instâncias de validação simbólica em contextos marcados pela mediação digital. Os guardiões não apenas reproduzem conteúdos, mas exercem uma função normativa e interpretativa, contribuindo para a manutenção, disputa e reconfiguração das representações do passado em circulação social.
Competências mnemônicas
O conceito de competências mnemônicas refere-se ao conjunto de capacidades cognitivas, interpretativas e críticas mobilizadas pelos sujeitos na compreensão, produção e circulação de narrativas sobre o passado. No âmbito da literacia da memória, essas competências ultrapassam a simples recordação de eventos, envolvendo a habilidade de reconhecer a natureza mediada da memória, identificar processos de seleção e enquadramento, e avaliar a verossimilhança e os usos sociais das representações mnemônicas. Enquanto categoria analítica, as competências mnemônicas articulam dimensões cognitivas, afetivas e mediáticas, permitindo compreender como os indivíduos interpretam e reconfiguram o passado em contextos contemporâneos marcados pela circulação digital de conteúdos. Nesse sentido, constituem o núcleo operacional da literacia da memória, tornando possível analisar empiricamente os diferentes níveis de leitura crítica e participação dos sujeitos nos processos de construção da memória coletiva.
Remixagem mnemônica
O conceito de remixagem mnemônica refere-se ao processo de reconfiguração do passado por meio da recombinação de fragmentos de memória em novos arranjos narrativos, especialmente em ambientes mediáticos digitais. No âmbito da literacia da memória, a remixagem mnemônica envolve a apropriação de conteúdos preexistentes, como imagens, vídeos ou narrativas históricas, que são editados, reorganizados e ressignificados para produzir novas interpretações sobre o passado. Trata-se de uma prática que evidencia o caráter não fixo da memória, destacando a sua natureza processual, mediada e culturalmente situada. Enquanto categoria analítica, a remixagem mnemônica permite compreender como sujeitos, particularmente em contextos de cultura participativa, atuam como agentes ativos na construção da memória coletiva, articulando dimensões estéticas, afetivas e interpretativas na produção de sentidos em circulação social.
Abordagens metodológicas
A sistematização das abordagens metodológicas no âmbito da literacia da memória tem como objetivo organizar, de forma coerente e operacional, os diferentes procedimentos analíticos utilizados para compreender as práticas contemporâneas de construção, mediação e circulação da memória. Nesse contexto, destaca-se a proposta de modelos analíticos que permitem observar não apenas os produtos culturais em si, mas também os processos de criação, circulação e recepção, evidenciando as competências mnemônicas mobilizadas pelos sujeitos. Tal sistematização contribui para transformar a literacia da memória em uma ferramenta metodológica aplicável, possibilitando a investigação estruturada das dinâmicas de rememoração em ambientes digitais e consolidando o campo enquanto domínio analítico em desenvolvimento.
Modelo 4M

O Modelo 4M constitui uma proposta metodológica desenvolvida no âmbito da literacia da memória, com o objetivo de operacionalizar a análise das práticas de rememoração em contextos mediáticos digitais. Formulado na tese de Valdemir Soares dos Santos Neto, o modelo parte da necessidade de estruturar, em termos analíticos, as competências mnemônicas mobilizadas pelos sujeitos na interação com narrativas sobre o passado. Nesse sentido, o 4M organiza a literacia da memória em um conjunto de dimensões interdependentes que permitem compreender como a memória é evocada, interpretada, transformada e colocada em circulação, especialmente em ambientes marcados pela cultura participativa e pela mediação tecnológica.
Do ponto de vista estrutural, o modelo é composto por quatro dimensões analíticas, frequentemente associadas a processos como evocação, mediação, mobilização e movimento da memória, que operam de forma articulada na experiência dos sujeitos. Cada uma dessas dimensões corresponde a um nível específico de relação com o passado: desde a ativação de referências mnemônicas até a sua reconfiguração em novos contextos narrativos e mediáticos. O modelo permite, assim, identificar diferentes graus de complexidade na interação com a memória, evidenciando como fatores técnicos, culturais e afetivos influenciam a produção de sentido. Ao considerar essas dimensões de forma integrada, o 4M oferece um quadro analítico capaz de captar a dinâmica processual da memória na contemporaneidade.
Enquanto instrumento metodológico, o Modelo 4M possibilita a aplicação empírica do conceito de literacia da memória em diversos objetos de estudo, como conteúdos audiovisuais, práticas de cultura de fãs e interações em plataformas digitais. A sua utilização permite analisar não apenas os produtos finais, como vídeos ou narrativas, mas também os processos subjacentes de criação, circulação e recepção, articulando dimensões críticas e interpretativas. Dessa forma, o modelo contribui para a consolidação da literacia da memória como campo de investigação, ao fornecer critérios analíticos que tornam possível examinar, de maneira sistemática, as formas contemporâneas de construção e negociação do passado em ambientes digitais.
O modelo analítico organiza-se em quatro dimensões, sendo materialidade evocativa, mobilização da memória, mediação da memória e movimento mnemônico, cada uma composta por indicadores que permitem observar empiricamente as competências mnemônicas mobilizadas pelos sujeitos. Esses indicadores funcionam como categorias operacionais para a análise de conteúdos mediáticos, articulando dimensões narrativas, críticas, participativas e circulatórias da memória, conforme a proposta desenvolvida por Valdemir Santos Neto.
| Dimensão | Indicadores de análise |
|---|---|
| Materialidade evocativa |
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| Mobilização da memória |
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| Mediação da memória |
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| Movimento mnemônico |
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Material pedagógico
Referências
- ↑ Comunicação Pública
- ↑ Vídeo publicado no YouTube, apresentação e discussão do conceito de literacia da memória em contexto de cultura audiovisual e digital.
- ↑ Vídeo publicado no YouTube, defesa pública da tese de doutoramento sobre literacia da memória e cultura de fãs.
- ↑ Vídeo publicado no YouTube, aula introdutória sobre o campo dos estudos da memória digital com base na obra de Andrew Hoskins.
Conceitos relacionados
Referências
- Columbia University, Department of Germanic Languages. Andreas Huyssen. Disponível em: https://germanic.columbia.edu/content/andreas-huyssen. Acesso em 19 de abril de 2026.
- Huyssen, Andreas. After the Great Divide: Modernism, Mass Culture, Postmodernism. Indiana University Press, 1986.
- Huyssen, Andreas. Twilight Memories: Marking Time in a Culture of Amnesia. Routledge, 1995.
- Huyssen, Andreas. Present Pasts: Urban Palimpsests and the Politics of Memory. Stanford University Press, 2003.
- Assmann, Aleida. Cultural Memory and Western Civilization. Cambridge University Press, 2011.
- Erll, Astrid. Memory in Culture. Palgrave Macmillan, 2011.
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