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A '''memória protética''' | A '''memória protética''' é um conceito desenvolvido no campo dos estudos da memória que descreve a incorporação de experiências históricas não vividas diretamente pelos sujeitos, através da mediação de dispositivos culturais e tecnológicos. A noção foi sistematizada por [[Alison Landsberg]] no início do século XXI, no contexto de transformação da cultura mediática e da expansão dos Memory Studies, propondo uma reconfiguração das relações entre experiência, representação e memória. | ||
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== | == Desenvolvimento do conceito == | ||
A formulação da memória protética insere-se num momento de inflexão dos estudos da memória, em que a centralidade das instituições tradicionais, como arquivos e museus, começa a ser tensionada pela expansão dos media de massa. A proposta de Landsberg surge como resposta à necessidade de compreender como o passado passa a ser experienciado através de dispositivos que produzem envolvimento sensorial e emocional, deslocando a memória do domínio da vivência direta para o da mediação. | |||
Ao contrário da memória coletiva de [[Maurice Halbwachs]], que depende da pertença a grupos sociais, e da memória cultural de [[Jan Assmann]], que se ancora em estruturas simbólicas e institucionais, a memória protética caracteriza-se pela sua portabilidade e acessibilidade. Ela pode ser adquirida por qualquer sujeito exposto a determinadas narrativas mediadas, independentemente da sua posição histórica ou social. | |||
Essa deslocação implica uma reconfiguração epistemológica profunda, na medida em que questiona a distinção entre experiência vivida e experiência mediada, propondo que ambas podem operar de forma semelhante na constituição da memória. Neste sentido, a memória protética aproxima-se de debates contemporâneos sobre mediação, experiência estética e cognição distribuída. | |||
== Principais obras == | |||
=== ''Prosthetic Memory: The Transformation of American Remembrance in the Age of Mass Culture'' (2004, Alison Landsberg) === | |||
A obra ''Prosthetic Memory'' constitui o momento fundacional do conceito, sendo resultado de um percurso de investigação centrado na relação entre cultura mediática e memória histórica. Landsberg parte da análise de produtos culturais específicos, como filmes e exposições museológicas, para demonstrar que estes não apenas representam o passado, mas produzem condições para que os sujeitos estabeleçam uma relação afetiva com eventos que não viveram. A autora argumenta que, na era dos media de massa, a memória deixa de ser exclusivamente ancorada na experiência direta, passando a ser mediada por dispositivos que permitem a sua circulação e apropriação. | |||
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A memória | Do ponto de vista conceptual, a obra propõe uma redefinição da memória enquanto fenómeno distribuído e mediado. A utilização do termo “protética” indica que a memória pode ser entendida como uma extensão do sujeito, adquirida através de dispositivos externos. Essa formulação rompe com a ideia de memória como algo interno e estável, propondo antes uma concepção dinâmica e relacional. Landsberg articula essa ideia com exemplos concretos, como o cinema histórico e o Museu Memorial do Holocausto, evidenciando como a experiência sensorial e narrativa desses dispositivos contribui para a formação de memórias. | ||
Além disso, a obra introduz uma dimensão ética ao conceito, sugerindo que a memória protética pode desempenhar um papel na construção de empatia e responsabilidade social. Ao permitir que indivíduos se conectem com experiências históricas de sofrimento e injustiça, os media poderiam contribuir para a formação de uma consciência crítica. No entanto, essa proposta também abre espaço para debates sobre os limites dessa empatia e sobre os riscos de simplificação ou instrumentalização da memória. | |||
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=== ''Memory, Empathy, and the Politics of Identification'' (2009, Alison Landsberg) === | |||
Nesta obra, Landsberg retoma e aprofunda o conceito de memória protética, deslocando o foco da sua formulação para as suas implicações políticas e éticas. A autora passa a explorar de forma mais sistemática a relação entre memória, empatia e identificação, questionando em que medida a experiência mediada do passado pode contribuir para a construção de formas de solidariedade. O conceito deixa de ser apenas descritivo e passa a ser mobilizado como ferramenta crítica para analisar a política da representação. | |||
A | A análise centra-se na forma como diferentes media produzem regimes de identificação, permitindo ou limitando a capacidade dos sujeitos de se relacionarem com o passado. Landsberg argumenta que a memória protética não implica uma identificação total com os sujeitos históricos, mas antes a construção de uma relação mediada que reconhece a alteridade. Essa distinção é fundamental, na medida em que evita a ideia de apropriação total da experiência do outro, propondo antes uma forma de empatia crítica. | ||
Ao longo da obra, a autora também responde a críticas dirigidas ao conceito, particularmente aquelas que questionam a possibilidade de incorporação de experiências não vividas. Em vez de rejeitar essas críticas, Landsberg reformula o conceito, enfatizando a sua dimensão processual e contingente. A memória protética é, assim, entendida como um fenómeno situado, dependente de contextos específicos de mediação e recepção. | |||
<ref>Landsberg, Alison. ''Memory, Empathy, and the Politics of Identification''. New York: Routledge, 2009.</ref> | |||
=== ''Engaging the Past: Mass Culture and the Production of Historical Knowledge'' (artigos e ensaios, 2015–2018, Alison Landsberg) === | |||
Nos trabalhos mais recentes, Landsberg continua a desenvolver o conceito de memória protética em diálogo com as transformações da cultura digital e dos media contemporâneos. Embora não se trate de uma obra única, o conjunto de artigos publicados ao longo da década de 2010 permite observar uma reconfiguração do conceito em resposta às novas formas de produção e circulação da memória. O foco desloca-se para a análise de ambientes digitais e para a forma como estes alteram as condições de acesso ao passado. | |||
Nestes textos, a memória protética é articulada com conceitos como mediação digital, circulação algorítmica e cultura participativa. Landsberg reconhece que, no contexto contemporâneo, os sujeitos não são apenas receptores de memória, mas também produtores ativos, participando na sua construção e disseminação. Esta mudança implica uma complexificação do conceito, que passa a incluir dimensões como a remixagem, a interatividade e a co-criação. | |||
Ao mesmo tempo, a autora mantém a preocupação com as implicações éticas da memória mediada, destacando os riscos associados à sua circulação em ambientes digitais, como a descontextualização e a simplificação histórica. A memória protética continua a ser entendida como uma ferramenta analítica relevante, embora sujeita a tensões e ambiguidades que refletem a complexidade do contexto contemporâneo. | |||
<ref>Landsberg, Alison. “Engaging the Past: Mass Culture and the Production of Historical Knowledge”. ''New German Critique'', 2015–2018.</ref> | |||
== Referências == | == Referências == | ||
<references /> | <references /> | ||
* Halbwachs, Maurice. ''La mémoire collective''. Paris: PUF, 1950. | |||
* Assmann, Jan. ''Cultural Memory and Early Civilization''. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. | |||
* Hirsch, Marianne. ''The Generation of Postmemory''. New York: Columbia University Press, 2001. | |||
* Halbwachs, Maurice. ''La mémoire collective''. 1950. | |||
* Assmann, Jan. ''Cultural Memory and Early Civilization''. 2011. | |||
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== Categorias == | |||
[[Categoria:Estudos da memória]] | [[Categoria:Estudos da memória]] | ||
[[Categoria:Teoria da comunicação]] | [[Categoria:Teoria da comunicação]] | ||
Edição das 10h57min de 1 de maio de 2026
A memória protética é um conceito desenvolvido no campo dos estudos da memória que descreve a incorporação de experiências históricas não vividas diretamente pelos sujeitos, através da mediação de dispositivos culturais e tecnológicos. A noção foi sistematizada por Alison Landsberg no início do século XXI, no contexto de transformação da cultura mediática e da expansão dos Memory Studies, propondo uma reconfiguração das relações entre experiência, representação e memória.
| Memória Protética | |
|---|---|
| Definição | Incorporação mediada de experiências históricas não vividas diretamente |
| Área | Estudos da memória Estudos culturais Media studies |
| Origem | Alison Landsberg, 2004 |
| Conceitos relacionados | Memória coletiva Pós-memória Memória cultural |
| Estado | Conceito consolidado com debates críticos |
Desenvolvimento do conceito
A formulação da memória protética insere-se num momento de inflexão dos estudos da memória, em que a centralidade das instituições tradicionais, como arquivos e museus, começa a ser tensionada pela expansão dos media de massa. A proposta de Landsberg surge como resposta à necessidade de compreender como o passado passa a ser experienciado através de dispositivos que produzem envolvimento sensorial e emocional, deslocando a memória do domínio da vivência direta para o da mediação.
Ao contrário da memória coletiva de Maurice Halbwachs, que depende da pertença a grupos sociais, e da memória cultural de Jan Assmann, que se ancora em estruturas simbólicas e institucionais, a memória protética caracteriza-se pela sua portabilidade e acessibilidade. Ela pode ser adquirida por qualquer sujeito exposto a determinadas narrativas mediadas, independentemente da sua posição histórica ou social.
Essa deslocação implica uma reconfiguração epistemológica profunda, na medida em que questiona a distinção entre experiência vivida e experiência mediada, propondo que ambas podem operar de forma semelhante na constituição da memória. Neste sentido, a memória protética aproxima-se de debates contemporâneos sobre mediação, experiência estética e cognição distribuída.
Principais obras
Prosthetic Memory: The Transformation of American Remembrance in the Age of Mass Culture (2004, Alison Landsberg)
A obra Prosthetic Memory constitui o momento fundacional do conceito, sendo resultado de um percurso de investigação centrado na relação entre cultura mediática e memória histórica. Landsberg parte da análise de produtos culturais específicos, como filmes e exposições museológicas, para demonstrar que estes não apenas representam o passado, mas produzem condições para que os sujeitos estabeleçam uma relação afetiva com eventos que não viveram. A autora argumenta que, na era dos media de massa, a memória deixa de ser exclusivamente ancorada na experiência direta, passando a ser mediada por dispositivos que permitem a sua circulação e apropriação.
Do ponto de vista conceptual, a obra propõe uma redefinição da memória enquanto fenómeno distribuído e mediado. A utilização do termo “protética” indica que a memória pode ser entendida como uma extensão do sujeito, adquirida através de dispositivos externos. Essa formulação rompe com a ideia de memória como algo interno e estável, propondo antes uma concepção dinâmica e relacional. Landsberg articula essa ideia com exemplos concretos, como o cinema histórico e o Museu Memorial do Holocausto, evidenciando como a experiência sensorial e narrativa desses dispositivos contribui para a formação de memórias.
Além disso, a obra introduz uma dimensão ética ao conceito, sugerindo que a memória protética pode desempenhar um papel na construção de empatia e responsabilidade social. Ao permitir que indivíduos se conectem com experiências históricas de sofrimento e injustiça, os media poderiam contribuir para a formação de uma consciência crítica. No entanto, essa proposta também abre espaço para debates sobre os limites dessa empatia e sobre os riscos de simplificação ou instrumentalização da memória.
Memory, Empathy, and the Politics of Identification (2009, Alison Landsberg)
Nesta obra, Landsberg retoma e aprofunda o conceito de memória protética, deslocando o foco da sua formulação para as suas implicações políticas e éticas. A autora passa a explorar de forma mais sistemática a relação entre memória, empatia e identificação, questionando em que medida a experiência mediada do passado pode contribuir para a construção de formas de solidariedade. O conceito deixa de ser apenas descritivo e passa a ser mobilizado como ferramenta crítica para analisar a política da representação.
A análise centra-se na forma como diferentes media produzem regimes de identificação, permitindo ou limitando a capacidade dos sujeitos de se relacionarem com o passado. Landsberg argumenta que a memória protética não implica uma identificação total com os sujeitos históricos, mas antes a construção de uma relação mediada que reconhece a alteridade. Essa distinção é fundamental, na medida em que evita a ideia de apropriação total da experiência do outro, propondo antes uma forma de empatia crítica.
Ao longo da obra, a autora também responde a críticas dirigidas ao conceito, particularmente aquelas que questionam a possibilidade de incorporação de experiências não vividas. Em vez de rejeitar essas críticas, Landsberg reformula o conceito, enfatizando a sua dimensão processual e contingente. A memória protética é, assim, entendida como um fenómeno situado, dependente de contextos específicos de mediação e recepção.
Engaging the Past: Mass Culture and the Production of Historical Knowledge (artigos e ensaios, 2015–2018, Alison Landsberg)
Nos trabalhos mais recentes, Landsberg continua a desenvolver o conceito de memória protética em diálogo com as transformações da cultura digital e dos media contemporâneos. Embora não se trate de uma obra única, o conjunto de artigos publicados ao longo da década de 2010 permite observar uma reconfiguração do conceito em resposta às novas formas de produção e circulação da memória. O foco desloca-se para a análise de ambientes digitais e para a forma como estes alteram as condições de acesso ao passado.
Nestes textos, a memória protética é articulada com conceitos como mediação digital, circulação algorítmica e cultura participativa. Landsberg reconhece que, no contexto contemporâneo, os sujeitos não são apenas receptores de memória, mas também produtores ativos, participando na sua construção e disseminação. Esta mudança implica uma complexificação do conceito, que passa a incluir dimensões como a remixagem, a interatividade e a co-criação.
Ao mesmo tempo, a autora mantém a preocupação com as implicações éticas da memória mediada, destacando os riscos associados à sua circulação em ambientes digitais, como a descontextualização e a simplificação histórica. A memória protética continua a ser entendida como uma ferramenta analítica relevante, embora sujeita a tensões e ambiguidades que refletem a complexidade do contexto contemporâneo.
Referências
- ↑ Landsberg, Alison. Prosthetic Memory: The Transformation of American Remembrance in the Age of Mass Culture. New York: Columbia University Press, 2004.
- ↑ Landsberg, Alison. Memory, Empathy, and the Politics of Identification. New York: Routledge, 2009.
- ↑ Landsberg, Alison. “Engaging the Past: Mass Culture and the Production of Historical Knowledge”. New German Critique, 2015–2018.
- Halbwachs, Maurice. La mémoire collective. Paris: PUF, 1950.
- Assmann, Jan. Cultural Memory and Early Civilization. Cambridge: Cambridge University Press, 2011.
- Hirsch, Marianne. The Generation of Postmemory. New York: Columbia University Press, 2001.