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'' | ''Literacia da Memória e Cultura de fãs: a linguagem audiovisual dos edits no TikTok sobre o universo ficcional de The Crown (2025)'', tese de Valdemir Santos Neto, representa um dos primeiros esforços sistemáticos de consolidação do conceito de literacia da memória no campo académico. Inserida no âmbito dos Memory Studies e em diálogo direto com a literacia mediática, a investigação parte do reconhecimento de que o conceito, anteriormente proposto de forma inicial por Lopes, carecia de aprofundamento teórico, delimitação conceptual e, sobretudo, de uma operacionalização metodológica. Nesse sentido, a tese não apenas mobiliza o conceito, mas procura estruturá-lo como um campo analítico emergente, respondendo a lacunas identificadas na literatura sobre memória em contextos digitais. | ||
Um dos contributos centrais do trabalho reside na sua capacidade de integrar, de forma coerente, diferentes tradições teóricas que até então operavam de maneira relativamente dispersa. A tese articula os fundamentos da memória coletiva, desenvolvidos por Maurice Halbwachs, com abordagens contemporâneas sobre mediação da memória e cultura digital, incluindo contributos de autores como Andreas Huyssen e Alison Landsberg. A essa base soma-se o diálogo com os estudos da cultura de fãs e da convergência mediática, permitindo enquadrar as práticas participativas como formas ativas de produção e circulação da memória. Essa articulação teórica contribui para consolidar a literacia da memória como um conceito situado na interseção entre memória, media e cultura digital, superando abordagens fragmentadas e oferecendo um enquadramento interdisciplinar mais robusto. | |||
No plano empírico, a tese reforça essa consolidação ao demonstrar, através da análise da série The Crown e das práticas de remixagem em TikTok, como a memória coletiva é continuamente reconfigurada por práticas culturais mediadas. Os edits produzidos por fãs são analisados como dispositivos mnemônicos que operam simultaneamente em níveis afetivos, narrativos e interpretativos, evidenciando que a memória, no contexto digital, é construída através de processos de seleção, recontextualização e circulação. Ao deslocar o foco das instituições tradicionais para os utilizadores e suas práticas criativas, a investigação contribui para redefinir o objeto de estudo da memória, incorporando a dimensão participativa e algorítmica das plataformas digitais como elementos centrais na análise contemporânea. | |||
A consolidação do conceito torna-se particularmente evidente na proposta metodológica desenvolvida pela tese. A partir do modelo de Análise da Qualidade no Audiovisual, o autor elabora o chamado Modelo 4M, que estrutura a literacia da memória em dimensões analíticas interdependentes. Este modelo permite operacionalizar o conceito, transformando-o de uma formulação teórica abstrata em uma ferramenta aplicável à investigação empírica. Ao definir critérios e categorias de análise das competências mnemônicas — relacionadas à evocação, mediação, mobilização e circulação da memória —, a tese oferece um quadro metodológico que possibilita examinar de forma sistemática as práticas de rememoração em ambientes digitais. | |||
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=== ''Amnesia: Media, Memory, and the Vanishing Past'' (2016) === | === ''Amnesia: Media, Memory, and the Vanishing Past'' (2016) === | ||
Edição das 21h14min de 27 de abril de 2026
Andrew Hoskins é um pesquisador britânico na área de estudos da mídia, comunicação e memória, professor de Global Security, Politics and Memory na University of Glasgow e fundador do Centre for Memory, Narrative and Histories. É reconhecido por suas contribuições ao estudo da memória no contexto da cultura digital, tendo desenvolvido o conceito de “memória conectada” [1] para analisar como redes digitais, plataformas online e fluxos contínuos de informação transformam a produção, circulação e preservação da memória. Seu trabalho também explora as relações entre mídia, guerra e temporalidade, investigando como ambientes digitais reconfiguram a experiência do tempo histórico e desafiam modelos tradicionais de arquivo e autoridade. Situando-se na interseção entre teoria da mídia, estudos culturais e comunicação, suas pesquisas oferecem uma abordagem crítica sobre os impactos das infraestruturas digitais na memória contemporânea.
| Andrew Hoskins | |
|---|---|
| Nascimento | Não divulgado |
| Nacionalidade | Britânica |
| Ocupação | Pesquisador Professor universitário |
| Área | Estudos da mídia Memória cultural Cultura digital |
| Instituição | University of Glasgow |
| Website | Site oficial |
Hoskins também investiga as relações entre mídia, guerra e segurança, examinando como conflitos contemporâneos são registrados, mediados e lembrados em ambientes digitais. Sua abordagem enfatiza a velocidade, a volatilidade e a sobrecarga informacional características das redes, que desafiam formas tradicionais de autoridade histórica e de preservação do conhecimento, contribuindo para uma compreensão crítica da memória na era da comunicação global.
Conceito
Primeiros estudos
O termo literacia da memória surge no contexto recente de desenvolvimento dos Memory Studies em articulação com os estudos de media e comunicação, não possuindo uma origem clássica consolidada nem um uso estabilizado ao longo do século XX. A sua formulação enquanto conceito explícito pode ser identificada de forma mais sistemática no trabalho de Pedro Lopes, nomeadamente no artigo Literacia da memória: ficção audiovisual e o seu contributo para a construção da memória social, publicado na revista Comunicação Pública. Nesse texto, o autor apresenta o termo como uma proposta conceptual inicial — explicitamente descrita como uma “primeira abordagem” — indicando que não se trata de um conceito previamente estabelecido, mas sim de uma tentativa de nomear e estruturar um campo emergente. A importância desse trabalho reside precisamente no facto de oferecer uma das primeiras definições sistematizadas do termo em contexto académico, ancorando-o na análise da relação entre memória social e media audiovisuais.
No desenvolvimento do conceito, Lopes parte da constatação de que, nas sociedades contemporâneas, a construção da memória social é fortemente mediada por produtos culturais, em particular pela ficção audiovisual (cinema e televisão). A literacia da memória é, assim, definida como a capacidade de interpretar criticamente essas representações do passado, tendo em conta que elas não são neutras nem meramente informativas, mas resultam de processos de seleção, enquadramento e narrativa. O autor sublinha que essas representações operam num campo de tensões entre diferentes agentes sociais, interesses e regimes de memória, o que implica que o público desenvolva competências específicas para reconhecer a dimensão construída, plural e, por vezes, conflitual da memória. Neste sentido, o conceito aproxima-se de outras literacias críticas — como a literacia mediática — mas distingue-se por incidir especificamente sobre a relação entre media e memória histórica, enfatizando a necessidade de compreender como o passado é continuamente reconfigurado no presente através de dispositivos culturais e mediáticos.
Do ponto de vista genealógico e teórico, a literacia da memória, tal como proposta por Lopes, insere-se numa dupla tradição. Por um lado, dialoga diretamente com os fundamentos dos estudos da memória, nomeadamente a noção de memória coletiva formulada por Maurice Halbwachs e posteriormente desenvolvida em termos de memória cultural por autores como Jan Assmann, que enfatizam o caráter socialmente construído e institucionalmente mediado da memória. Por outro lado, articula-se com a evolução do conceito de literacia no âmbito dos New Literacy Studies, que expandiram a noção de literacia para além da competência técnica de leitura e escrita, incorporando dimensões críticas, contextuais e multimodais. A literacia da memória emerge, assim, como um conceito situado na interseção destes dois campos, procurando responder a transformações contemporâneas marcadas pela centralidade dos media na produção de narrativas históricas. Apesar dessa fundamentação teórica, permanece um conceito em consolidação, cuja utilização ainda é relativamente circunscrita e dependente de contextos específicos de investigação e aplicação.
Consolidação e desenvolvimento conceptual
A consolidação do conceito de literacia da memória ocorre no âmbito de investigações recentes que procuram sistematizar a articulação entre os Memory Studies e a literacia mediática em contextos digitais. Um contributo relevante para esse processo encontra-se na tese de Valdemir Soares dos Santos Neto, que propõe um desenvolvimento teórico e metodológico mais estruturado do conceito a partir das formulações iniciais de Lopes. Nesta investigação, a literacia da memória é tratada como um campo em construção, cujo objetivo é responder às transformações contemporâneas nos modos de produção, circulação e interpretação da memória em ambientes mediados por tecnologias digitais.
A tese insere o conceito num contexto marcado pela intensificação da mediação tecnológica da memória, caracterizado por processos como a plataformização, a lógica algorítmica e a circulação contínua de conteúdos em redes sociais. Neste cenário, a memória deixa de estar exclusivamente associada a instituições tradicionais (como arquivos ou museus) e passa a ser continuamente reconfigurada em ambientes digitais, nos quais os sujeitos desempenham um papel ativo na sua produção e ressignificação. A literacia da memória é, assim, conceptualizada como um conjunto de competências que permite compreender criticamente esses processos, incluindo a capacidade de interpretar representações mediadas do passado, reconhecer a sua natureza construída e participar na sua circulação e transformação.
No plano conceptual, a investigação de Santos Neto propõe uma articulação entre diferentes tradições teóricas, incluindo contributos dos estudos da memória (como Maurice Halbwachs, Andreas Huyssen e Alison Landsberg), dos estudos da cultura de fãs e dos media, bem como das teorias da literacia mediática. A partir dessa articulação, o conceito é desenvolvido como uma ferramenta analítica capaz de captar a complexidade das práticas de rememoração na cultura digital, particularmente em contextos de participação ativa dos utilizadores, como a produção e circulação de conteúdos audiovisuais.
Um dos principais avanços da tese reside na operacionalização do conceito através de um modelo analítico específico, designado como Modelo 4M, que organiza as competências mnemônicas em dimensões interdependentes. Estas dimensões permitem analisar de forma estruturada os processos pelos quais os indivíduos evocam, mobilizam, mediam e transformam a memória em ambientes digitais, articulando aspectos técnicos, afetivos e interpretativos. Este modelo constitui uma tentativa de sistematizar o conceito de literacia da memória, oferecendo critérios analíticos aplicáveis à investigação empírica e contribuindo para a sua consolidação enquanto ferramenta metodológica.
Principais obras
Literacia da Memória e Cultura de fãs: a linguagem audiovisual dos edits no TikTok sobre o universo ficcional de The Crown' (2025, Valdemir Santos Neto)

Literacia da Memória e Cultura de fãs: a linguagem audiovisual dos edits no TikTok sobre o universo ficcional de The Crown (2025), tese de Valdemir Santos Neto, representa um dos primeiros esforços sistemáticos de consolidação do conceito de literacia da memória no campo académico. Inserida no âmbito dos Memory Studies e em diálogo direto com a literacia mediática, a investigação parte do reconhecimento de que o conceito, anteriormente proposto de forma inicial por Lopes, carecia de aprofundamento teórico, delimitação conceptual e, sobretudo, de uma operacionalização metodológica. Nesse sentido, a tese não apenas mobiliza o conceito, mas procura estruturá-lo como um campo analítico emergente, respondendo a lacunas identificadas na literatura sobre memória em contextos digitais.
Um dos contributos centrais do trabalho reside na sua capacidade de integrar, de forma coerente, diferentes tradições teóricas que até então operavam de maneira relativamente dispersa. A tese articula os fundamentos da memória coletiva, desenvolvidos por Maurice Halbwachs, com abordagens contemporâneas sobre mediação da memória e cultura digital, incluindo contributos de autores como Andreas Huyssen e Alison Landsberg. A essa base soma-se o diálogo com os estudos da cultura de fãs e da convergência mediática, permitindo enquadrar as práticas participativas como formas ativas de produção e circulação da memória. Essa articulação teórica contribui para consolidar a literacia da memória como um conceito situado na interseção entre memória, media e cultura digital, superando abordagens fragmentadas e oferecendo um enquadramento interdisciplinar mais robusto.
No plano empírico, a tese reforça essa consolidação ao demonstrar, através da análise da série The Crown e das práticas de remixagem em TikTok, como a memória coletiva é continuamente reconfigurada por práticas culturais mediadas. Os edits produzidos por fãs são analisados como dispositivos mnemônicos que operam simultaneamente em níveis afetivos, narrativos e interpretativos, evidenciando que a memória, no contexto digital, é construída através de processos de seleção, recontextualização e circulação. Ao deslocar o foco das instituições tradicionais para os utilizadores e suas práticas criativas, a investigação contribui para redefinir o objeto de estudo da memória, incorporando a dimensão participativa e algorítmica das plataformas digitais como elementos centrais na análise contemporânea.
A consolidação do conceito torna-se particularmente evidente na proposta metodológica desenvolvida pela tese. A partir do modelo de Análise da Qualidade no Audiovisual, o autor elabora o chamado Modelo 4M, que estrutura a literacia da memória em dimensões analíticas interdependentes. Este modelo permite operacionalizar o conceito, transformando-o de uma formulação teórica abstrata em uma ferramenta aplicável à investigação empírica. Ao definir critérios e categorias de análise das competências mnemônicas — relacionadas à evocação, mediação, mobilização e circulação da memória —, a tese oferece um quadro metodológico que possibilita examinar de forma sistemática as práticas de rememoração em ambientes digitais.
Amnesia: Media, Memory, and the Vanishing Past (2016)
Amnesia: Media, Memory, and the Vanishing Past (2016) constitui uma das obras mais sistemáticas de sua reflexão sobre os efeitos da cultura digital na memória contemporânea, propondo a tese de que vivemos um processo paradoxal no qual o excesso de registro e armazenamento de dados não fortalece a memória, mas contribui para o seu enfraquecimento. No livro, Hoskins argumenta que a transição das mídias analógicas — marcadas pela escassez, degradação material e “tempo de decaimento” — para ambientes digitais hiperconectados altera profundamente a relação entre passado e presente, eliminando a distância temporal que tradicionalmente estruturava a memória histórica. Enquanto no passado a deterioração dos suportes físicos (como filmes, fitas e arquivos impressos) implicava uma seleção e valorização do que era preservado, o digital promove uma acumulação contínua, instantânea e aparentemente infinita de traços do passado, transformando a memória em um fluxo incessante e instável de dados .
Nesse contexto, Hoskins desenvolve a ideia de que a memória contemporânea é marcada por uma “amnésia” estrutural, não no sentido de esquecimento por ausência, mas por saturação e perda de significado, em que o passado se torna constantemente presente, porém descontextualizado e difícil de interpretar. O livro analisa como redes sociais, arquivos digitais e práticas de compartilhamento produzem uma memória distribuída, volátil e dependente de infraestruturas tecnológicas, deslocando o controle da lembrança dos indivíduos e instituições para sistemas algorítmicos e plataformas digitais. Ao enfatizar a hiperconectividade e a compressão temporal, Hoskins mostra que a memória deixa de ser um processo de reconstrução reflexiva para se tornar uma atividade contínua, automatizada e muitas vezes inconsciente, em que lembrar e esquecer se confundem. Assim, Amnesia oferece uma crítica central à cultura digital, ao demonstrar que a proliferação de registros não garante preservação significativa do passado, mas pode, ao contrário, contribuir para sua dissolução na lógica acelerada e fragmentada da comunicação contemporânea.
Risk and Hyperconnectivity: Media and Memories of Neoliberalism (2016, com John Tulloch)

Risk and Hyperconnectivity: Media and Memories of Neoliberalism (2016), de Andrew Hoskins e John Tulloch, é uma obra que propõe uma articulação teórica inovadora entre três campos fundamentais — teoria do risco, teoria da neoliberalização e teoria da conectividade — para compreender as transformações contemporâneas da memória e da experiência social em um mundo hiperconectado. Publicado pela Oxford University Press, o livro analisa como os eventos críticos do início do século XXI — como crises econômicas, terrorismo e conflitos globais — são mediados por ecologias comunicacionais intensivas, nas quais a circulação contínua de informações redefine tanto a percepção do risco quanto os modos de lembrar e esquecer. Os autores argumentam que a hiperconectividade não é apenas um meio através do qual o risco circula, mas constitui em si uma nova condição de risco, ao alterar profundamente a forma como indivíduos e sociedades experienciam eventos, constroem narrativas e produzem memória em ambientes saturados de mídia.
A obra também examina criticamente como essas dinâmicas estão inseridas no contexto do neoliberalismo, mostrando que as memórias mediadas desempenham um papel central na legitimação de políticas econômicas, regimes de segurança e formas de governança contemporâneas. Por meio de estudos de caso e análise interdisciplinar, Hoskins e Tulloch exploram questões como o equilíbrio entre privacidade e vigilância, o papel dos jornalistas como mediadores do risco e a maneira como práticas de lembrança e esquecimento contribuem para a formação de culturas de insegurança. O livro demonstra que, em uma era de conectividade permanente, a memória torna-se cada vez mais distribuída, instável e dependente de infraestruturas tecnológicas, ao mesmo tempo em que participa ativamente da reprodução — e contestação — das estruturas neoliberais, consolidando-se como uma referência importante nos estudos sobre mídia, memória e política contemporânea
Digital Memory Studies: Media Pasts in Transition (2017, editor)

Digital Memory Studies: Media Pasts in Transition (2017), editado por Andrew Hoskins, constitui uma obra coletiva fundamental para a consolidação do campo dos estudos da memória digital, reunindo contribuições de diversos pesquisadores com o objetivo de mapear, problematizar e redefinir as relações entre mídia e memória no contexto das tecnologias contemporâneas. Publicado pela Routledge, o livro propõe uma agenda interdisciplinar que articula teoria da mídia, estudos culturais, história e sociologia para compreender como os ambientes digitais transformam simultaneamente os processos de lembrar e esquecer, introduzindo condições paradoxais nas quais a memória é ao mesmo tempo ampliada e submetida a novas formas de controle.
A obra enfatiza que redes digitais, arquivos online e plataformas tecnológicas não apenas reconfiguram a preservação do passado, mas também alteram sua circulação e significado, exigindo uma revisão crítica dos conceitos clássicos de memória coletiva, arquivo e temporalidade . Estruturado a partir de diferentes eixos analíticos — como conectividade, arqueologia da mídia, economia e arquivo — o livro examina uma ampla gama de fenômenos, incluindo redes sociais, videogames, televisão, instituições de memória e o chamado “pós-vida digital”, evidenciando como o passado se torna cada vez mais distribuído, dinâmico e reconfigurável em ambientes hiperconectados . Um dos argumentos centrais desenvolvidos por Hoskins na introdução é o de que vivemos um “terceiro boom da memória”, marcado por uma intensificação sem precedentes da presença do passado no presente, mediada por tecnologias digitais que comprimem o tempo e ampliam a participação dos usuários na produção de narrativas históricas . Nesse sentido, Digital Memory Studies não apenas sintetiza debates existentes, mas estabelece um quadro teórico abrangente para compreender a “remodelação digital da memória”, tornando-se uma referência essencial para pesquisadores interessados nas transformações contemporâneas da cultura, da comunicação e da memória.
Radical War: Data, Attention and Control in the Twenty-First Century (2022, com Matthew Ford)

Radical War: Data, Attention and Control in the Twenty-First Century (2022), de Andrew Hoskins e Matthew Ford, propõe uma reformulação profunda da compreensão contemporânea da guerra ao introduzir o conceito de “guerra radical”, caracterizada pela integração total entre tecnologias digitais, fluxos de dados e ecologias de atenção. Publicado pela Oxford University Press, o livro argumenta que a proliferação de dispositivos conectados — como smartphones, redes sociais e sistemas algorítmicos — transformou o campo de batalha em um ambiente distribuído e contínuo, no qual a distinção entre combatentes e civis, produtores e consumidores de informação, ou mesmo entre mídia e arma, torna-se progressivamente indistinta. Nesse cenário, a guerra não é mais um evento delimitado, mas um processo permanente, mediado por infraestruturas digitais que permitem a participação de múltiplos atores em tempo real, ampliando o alcance e a complexidade dos conflitos contemporâneos.
A obra estrutura sua análise em torno de três eixos centrais — dados (data), atenção (attention) e controle (control) — demonstrando como esses elementos se articulam para produzir novas formas de poder e violência política. Hoskins e Ford argumentam que os dados gerados continuamente em ambientes digitais alimentam sistemas de vigilância e decisão, enquanto a atenção humana é capturada, direcionada e instrumentalizada como recurso estratégico, transformando usuários comuns em participantes ativos da guerra, seja como disseminadores de informação, seja como alvos ou agentes indiretos. Ao mesmo tempo, o controle emerge como resultado dessas interdependências entre humanos e tecnologias, criando uma ecologia de guerra na qual o conflito é simultaneamente físico, informacional e perceptivo. O livro também enfatiza que essa transformação altera profundamente a memória da guerra, que passa a ser produzida, compartilhada e manipulada em tempo real, consolidando uma visão crítica sobre a militarização da vida cotidiana e o papel central das mídias digitais na reconfiguração da violência no século XX.
Temas recorrentes
- memória cultural
- cultura de massa
- modernidade e esquecimento
- urbanismo
- mídia e representação
Recepção crítica
Os escritos de Andrew Hoskins são frequentemente reconhecidos por consolidar o campo dos digital memory studies, mas a recepção crítica aponta tensões importantes. Por um lado, autores destacam que sua abordagem, especialmente em Digital Memory Studies: Media Pasts in Transition, que oferece uma agenda teórica robusta ao articular memória, mídia e fenômenos como big data e plataformas digitais, ampliando o escopo tradicional dos estudos de memória.[2] Por outro, críticos observam que essa ampliação vem acompanhada de certa dispersão conceitual: a memória torna-se “difusa, intangível” e excessivamente abrangente, o que pode diluir sua precisão analítica e dificultar delimitações metodológicas claras.[3] Além disso, há questionamentos sobre o caráter programático de sua obra, vista mais como mapeamento de problemas do que como proposição de soluções empíricas consistentes, o que insere Hoskins em uma tradição teórica ainda em consolidação.[4]
Uma segunda linha crítica incide sobre o próprio diagnóstico de Hoskins acerca da memória digital. Sua visão, frequentemente caracterizada como pessimista, sustenta que o ambiente digital desestabiliza profundamente as fronteiras temporais e espaciais da memória coletiva.[5] Embora influente, essa tese é contestada por estudiosos que consideram que conceitos como “memória conectiva” tendem a superestimar a fluidez e a horizontalidade das redes digitais, negligenciando assimetrias de poder, controle algorítmico e fragmentação informacional.[6] Nesse sentido, críticas recentes sugerem que a teoria de Hoskins precisa ser complementada por abordagens mais materialistas e políticas, capazes de explicar como infraestruturas tecnológicas e interesses corporativos moldam aquilo que pode ou não ser lembrado. Em síntese, sua obra é central, mas permanece objeto de debate quanto ao seu alcance explicativo e ao equilíbrio entre inovação conceitual e rigor empírico.
Conferências
Referências
- ↑ (connected memory)
- ↑ Hoskins, Andrew (ed.). Digital Memory Studies: Media Pasts in Transition. Routledge, 2017.
- ↑ Synenko, Joshua. Review of Digital Memory Studies: Media Pasts in Transition. 2019.
- ↑ Adriaansen, Robbert-Jan. “Collective memory and social media: critical review”. 2025.
- ↑ Mandolessi, Silvana. “Memory in the digital age”. 2024.
- ↑ “Connective and Disjunctive Memory”. Verfassungsblog, 2025.
- ↑ Vídeo publicado no YouTube em 2021, entrevista sobre mídia e memória digital. :contentReference[oaicite:0]{index=0}
- ↑ Palestra aberta de Andrew Hoskins publicada online cerca de 2023. :contentReference[oaicite:1]{index=1}
- ↑ Keynote recente disponível em canal institucional (IIT Madras). :contentReference[oaicite:2]{index=2}
- ↑ Entrevista recente sobre inteligência artificial e memória digital (YouTube).
Artigos publicados
| Ano | Autor(es) | Título | Revista |
|---|---|---|---|
| 1984 | Huyssen, Andreas | Mapping the Postmodern | New German Critique |
| 2000 | Huyssen, Andreas | Present Pasts: Media, Politics, Amnesia | Public Culture |
| 2002 | Huyssen, Andreas | High/Low in an Expanded Field | Modernism/Modernity |
| 2006 | Huyssen, Andreas | Nostalgia for Ruins | (revista não especificada – acesso via JSTOR) |
| 2006 | Huyssen, Andreas | Diaspora and Nation: Migration into Other Pasts | (capítulo de livro – Duke University Press) |
| 2007 | Huyssen, Andreas | Geographies of Modernism in a Globalizing World | (revista não especificada – acesso via JSTOR) |
| 2008 | Huyssen, Andreas | Memory culture at an impasse: Memorials in Berlin and New York | (revista não especificada – acesso via JSTOR) |
| 2010 | Huyssen, Andreas | German Painting in the Cold War | (revista não especificada – acesso via JSTOR) |
| 2011 | Huyssen, Andreas | International Human Rights and the Politics of Memory | (revista não especificada – acesso via JSTOR) |
| 2016 | Huyssen, Andreas | Memory things and their temporality | Theory, Culture & Society |
Principais conceitos
Referências
- Columbia University, Department of Germanic Languages. Andreas Huyssen. Disponível em: https://germanic.columbia.edu/content/andreas-huyssen. Acesso em 19 de abril de 2026.
- Huyssen, Andreas. After the Great Divide: Modernism, Mass Culture, Postmodernism. Indiana University Press, 1986.
- Huyssen, Andreas. Twilight Memories: Marking Time in a Culture of Amnesia. Routledge, 1995.
- Huyssen, Andreas. Present Pasts: Urban Palimpsests and the Politics of Memory. Stanford University Press, 2003.
- Assmann, Aleida. Cultural Memory and Western Civilization. Cambridge University Press, 2011.
- Erll, Astrid. Memory in Culture. Palgrave Macmillan, 2011.
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