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A '''memória protética''' constitui um dos conceitos mais influentes no campo contemporâneo dos estudos da memória, particularmente no cruzamento entre cultura mediática, história e política da representação. Desenvolvida por [[Alison Landsberg]] no início do século XXI, a noção descreve o processo pelo qual sujeitos passam a incorporar como próprias experiências históricas que não viveram diretamente, através do contacto com dispositivos culturais e mediáticos. Este processo não implica mera aquisição de informação sobre o passado, mas envolve a produção de uma relação afetiva e sensorial com eventos históricos, reconfigurando as fronteiras entre memória individual e memória pública.
A '''memória protética''' é um conceito desenvolvido no campo dos estudos da memória que descreve o processo pelo qual indivíduos incorporam experiências históricas que não viveram diretamente, através da mediação de dispositivos culturais e tecnológicos. A noção foi sistematizada por [[Alison Landsberg]] no início do século XXI, no contexto de transformação da cultura mediática, propondo uma reconfiguração profunda das relações entre experiência, representação e memória.


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! Definição
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| Incorporação de experiências históricas não vividas diretamente, mediada por dispositivos culturais e tecnológicos.
| Incorporação mediada de experiências históricas não vividas diretamente
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| Desenvolvido por [[Alison Landsberg]] (2004)
| [[Alison Landsberg]], 2004
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| Expansão dos media de massa e transformação da cultura da memória (final do século XX – início do século XXI)
| Expansão dos media de massa e transformação da cultura da memória
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! Conceitos relacionados
! Conceitos relacionados
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==== Antecedentes teóricos ====
==== Antecedentes teóricos ====
A emergência da memória protética não ocorre de forma isolada, devendo ser compreendida como resultado de um longo processo de transformação no campo dos estudos da memória ao longo do século XX. A partir da formulação da memória coletiva por [[Maurice Halbwachs]], a memória deixa de ser concebida como um fenómeno estritamente individual, passando a ser entendida como socialmente estruturada. Essa deslocação conceptual é aprofundada por [[Jan Assmann]], que introduz a noção de memória cultural, enfatizando o papel das instituições, dos rituais e dos suportes materiais na transmissão do passado.
A memória protética emerge a partir de um longo processo de transformação conceptual iniciado com a obra de [[Maurice Halbwachs]], cuja formulação da memória coletiva estabelece a premissa de que a memória é socialmente estruturada. Este enquadramento é posteriormente ampliado por [[Jan Assmann]], que introduz a noção de memória cultural, enfatizando a institucionalização e a materialidade dos processos de rememoração.


No entanto, essas abordagens mantêm ainda uma ligação relativamente estável entre memória e pertença social, seja ela grupal ou cultural. A partir do final do século XX, essa relação começa a ser tensionada por transformações mediáticas, particularmente com a massificação do cinema, da televisão e dos museus experiencialmente orientados.
No entanto, ambas as abordagens mantêm uma relação relativamente estável entre memória e pertença social. A partir do final do século XX, essa relação é tensionada pela centralidade crescente dos media, que passam a operar como mediadores privilegiados da experiência histórica.


É neste contexto que emerge o trabalho de [[Marianne Hirsch]], cuja formulação de pós-memória introduz um primeiro deslocamento relevante, ao descrever a relação das gerações posteriores com traumas que não viveram diretamente, mas que são transmitidos através de narrativas familiares e imagens. Ainda assim, a pós-memória permanece ancorada numa lógica de herança intergeracional.
É neste contexto que a contribuição de [[Marianne Hirsch]] se torna relevante, ao introduzir o conceito de pós-memória, descrevendo a relação das gerações posteriores com traumas históricos não vividos diretamente. Ainda assim, a pós-memória permanece ancorada numa lógica de transmissão familiar, o que a distingue da memória protética.
 
A memória protética surge precisamente como uma ruptura com essa lógica de transmissão, ao deslocar o foco da herança para a mediação.


==== Formulação por Alison Landsberg ====
==== Formulação por Alison Landsberg ====
O conceito de memória protética é sistematizado por [[Alison Landsberg]] na obra ''Prosthetic Memory'' (2004), resultado de um percurso intelectual centrado na análise da cultura mediática americana e na sua relação com a memória histórica. A autora parte da análise de dispositivos culturais específicos, como o cinema e os museus, para argumentar que estes não apenas representam o passado, mas produzem formas de experiência que permitem aos sujeitos “sentir” esse passado.
O conceito de memória protética é sistematizado por [[Alison Landsberg]] na obra ''Prosthetic Memory'' (2004), resultado de uma investigação centrada na relação entre cultura mediática e memória histórica. A autora argumenta que os media não apenas representam o passado, mas produzem condições para que os sujeitos estabeleçam relações afetivas com eventos históricos.


A escolha do termo “protética” não é meramente metafórica, mas profundamente conceptual. Landsberg inspira-se na ideia de prótese como extensão do corpo, sugerindo que a memória pode ser igualmente estendida através de dispositivos externos. Esta formulação implica uma redefinição da própria natureza da memória, que deixa de ser entendida como interna e biográfica para passar a ser concebida como distribuída e mediada.
A escolha do termo “protética” indica uma analogia com a prótese enquanto extensão do corpo, sugerindo que a memória pode ser adquirida externamente. Esta formulação implica uma redefinição da memória como fenómeno distribuído e mediado, rompendo com a sua concepção tradicional enquanto experiência interna.


Ao longo da sua obra, Landsberg demonstra como determinados dispositivos culturais, particularmente os museus imersivos e o cinema histórico, produzem experiências sensoriais que permitem a incorporação de memórias. A análise do Museu Memorial do Holocausto nos Estados Unidos constitui um dos exemplos centrais, evidenciando como a materialidade expositiva e a narrativa museológica operam na construção de uma experiência afetiva do passado.
==== Desenvolvimento posterior ====
Nos seus trabalhos subsequentes, Landsberg desloca o foco para as implicações éticas e políticas da memória protética, particularmente no que diz respeito à empatia e à identificação. O conceito passa a ser mobilizado não apenas como descrição de um fenómeno, mas como ferramenta crítica para analisar a circulação da memória na cultura contemporânea.


==== Desenvolvimento posterior da autora ====
== Evolução e reconfiguração ==
A trajetória intelectual de Landsberg não se limita à formulação inicial do conceito. Em trabalhos posteriores, a autora aprofunda a dimensão ética e política da memória protética, particularmente na obra ''Memory, Empathy, and the Politics of Identification''. Neste momento, o foco desloca-se da descrição do fenómeno para a análise das suas implicações.
 
A memória protética passa então a ser entendida como um potencial mecanismo de construção de empatia e responsabilidade social, capaz de aproximar sujeitos de experiências históricas de sofrimento e injustiça. Contudo, a própria autora reconhece os limites desse potencial, abrindo espaço para debates críticos sobre a instrumentalização da memória mediada.


== Evolução e reconfiguração ==
==== Expansão mediática ====
Inicialmente centrada no cinema e nos museus, a memória protética expande-se para incluir outros dispositivos mediáticos, acompanhando as transformações tecnológicas e culturais.


==== Expansão para os media digitais ====
==== Contexto digital ====
Com o avanço das tecnologias digitais, o conceito de memória protética é progressivamente reconfigurado. A lógica originalmente centrada em cinema e museus expande-se para incluir plataformas digitais, redes sociais e ambientes interativos.
Com a emergência das plataformas digitais, o conceito é reconfigurado para incluir práticas participativas, circulação algorítmica e produção descentralizada da memória.


Neste novo contexto, a produção de memória deixa de ser predominantemente institucional e passa a ser distribuída, participativa e algorítmica. A memória protética deixa de ser apenas consumida e passa a ser também produzida pelos próprios utilizadores, especialmente em contextos de cultura participativa.
==== Articulação com cognição distribuída ====
A aproximação à teoria da mente estendida de [[Andy Clark]] e [[David Chalmers]] permite compreender a memória protética como parte de um sistema cognitivo ampliado.


==== Articulação com a teoria da mente estendida ====
== Principais obras ==
Um dos desdobramentos mais relevantes do conceito ocorre na sua aproximação à teoria da mente estendida de [[Andy Clark]] e [[David Chalmers]]. Embora estes autores não tratem diretamente da memória protética, a sua proposta de que processos cognitivos podem ser externalizados para o ambiente oferece uma base teórica importante para compreender a dimensão tecnológica da memória.


A articulação entre estas abordagens permite compreender a memória protética não apenas como fenómeno cultural, mas também como processo cognitivo distribuído, no qual dispositivos técnicos funcionam como extensões da memória humana.
=== ''Prosthetic Memory: The Transformation of American Remembrance in the Age of Mass Culture'' (2004, Alison Landsberg) ===


==== Integração nos estudos da memória digital ====
Esta obra constitui o ponto de partida do conceito, sendo simultaneamente uma análise histórica da cultura da memória nos Estados Unidos e uma proposta teórica inovadora. Landsberg investiga como o cinema e os museus reconfiguram a relação entre sujeitos e passado, argumentando que estes dispositivos produzem experiências sensoriais capazes de gerar formas de memória que não dependem da vivência direta. A autora mobiliza exemplos concretos, como exposições museológicas e filmes históricos, para demonstrar como a narrativa e a materialidade operam na construção de experiências mnemónicas.
Mais recentemente, o conceito é incorporado nos estudos da memória digital, onde passa a ser analisado em relação a fenómenos como:


* plataformização da memória
Do ponto de vista conceptual, o livro propõe uma ruptura com a tradição dos estudos da memória ao deslocar o foco da pertença social para a mediação cultural. A memória protética é definida como uma forma de memória adquirida, que se inscreve no sujeito através do contacto com representações do passado. Essa inscrição não é meramente cognitiva, mas envolve uma dimensão afetiva que permite a construção de uma relação pessoal com eventos históricos. A obra estabelece, assim, uma nova forma de pensar a memória na era dos media.
* circulação algorítmica de narrativas 
* remixagem e recontextualização de conteúdos 
* participação dos utilizadores 


Neste contexto, a memória protética assume uma dimensão dinâmica e processual, sendo constantemente reconfigurada através da interação entre sujeitos, plataformas e conteúdos.
Além disso, Landsberg introduz uma dimensão ética ao conceito, sugerindo que a memória protética pode contribuir para a formação de empatia e responsabilidade social. No entanto, essa proposta não é apresentada de forma ingênua, sendo acompanhada por uma reflexão sobre os limites e as ambivalências da mediação. O livro torna-se, assim, uma referência central não apenas pela introdução do conceito, mas pela sua capacidade de articular teoria, análise empírica e implicações políticas. <ref>Landsberg, Alison. ''Prosthetic Memory''. Columbia University Press, 2004.</ref>


== Debates críticos ==
=== ''Memory, Empathy, and the Politics of Identification'' (2009, Alison Landsberg) ===


A trajetória do conceito é marcada por um conjunto de críticas que se concentram em três eixos principais:
Nesta obra, Landsberg aprofunda o conceito de memória protética ao deslocar o foco para a análise das formas de identificação produzidas pelos media. A autora investiga como diferentes dispositivos culturais estruturam a relação entre sujeito e passado, propondo que a memória protética não implica uma identificação total com os sujeitos históricos, mas antes uma forma mediada de relação que reconhece a diferença. Este deslocamento é fundamental para evitar a ideia de apropriação da experiência do outro.


* '''epistemológico''' – questiona-se a possibilidade de “incorporar” experiências não vividas 
A obra desenvolve uma análise mais refinada da dimensão política da memória protética, explorando o seu potencial para promover formas de solidariedade e consciência crítica. Landsberg argumenta que a experiência mediada do passado pode contribuir para a construção de uma ética da responsabilidade, na medida em que permite aos sujeitos confrontarem-se com realidades históricas que lhes são externas. No entanto, essa potencialidade é apresentada como contingente, dependente das condições de mediação.
* '''ético''' – problematiza-se a relação entre empatia mediada e responsabilidade política 
* '''cultural''' – discute-se o risco de simplificação e homogeneização do passado 


Estas críticas não invalidam o conceito, mas contribuem para a sua complexificação, levando a uma abordagem mais cautelosa e contextualizada.
Ao longo do livro, a autora também responde a críticas dirigidas ao conceito, particularmente aquelas que questionam a possibilidade de incorporação de experiências não vividas. Em vez de rejeitar essas críticas, Landsberg reformula o conceito, enfatizando a sua natureza processual e situada. A memória protética passa a ser entendida como um fenómeno relacional, dependente da interação entre sujeito, media e contexto. <ref>Landsberg, Alison. ''Memory, Empathy, and the Politics of Identification''. Routledge, 2009.</ref>


== Desdobramentos conceptuais ==
=== Trabalhos recentes e reconfiguração digital (2010–presente, Alison Landsberg) ===


==== Empatia mediada ====
Nos seus trabalhos mais recentes, Landsberg reconfigura o conceito de memória protética à luz das transformações digitais, analisando como novas formas de mediação alteram as condições de produção e circulação da memória. A autora passa a considerar ambientes digitais como espaços privilegiados para a formação de memórias protéticas, destacando a importância da interatividade, da participação e da circulação em rede.
A memória protética introduz uma nova forma de relação com o passado baseada na empatia, mediada por dispositivos culturais.


==== Memória distribuída ====
Este conjunto de trabalhos evidencia uma mudança significativa na compreensão do conceito, que deixa de ser centrado em dispositivos institucionais para incluir práticas distribuídas e participativas. A memória protética passa a ser entendida como um processo dinâmico, no qual os sujeitos não são apenas receptores, mas também produtores de memória. Esta mudança aproxima o conceito de debates contemporâneos sobre cultura digital e memória.
O conceito contribui para a compreensão da memória como fenómeno distribuído entre sujeitos, media e tecnologias.


==== Mediação da experiência histórica ====
Ao mesmo tempo, Landsberg mantém uma abordagem crítica, destacando os riscos associados à circulação digital da memória, como a descontextualização e a simplificação histórica. A memória protética continua a ser uma ferramenta analítica relevante, embora cada vez mais complexa, refletindo as tensões e ambiguidades da cultura contemporânea. <ref>Landsberg, Alison. Artigos diversos em ''Memory Studies'' e ''New German Critique'', 2010–presente.</ref>
Reforça a ideia de que o acesso ao passado é sempre mediado, sendo condicionado por formas narrativas e dispositivos técnicos.


== Aplicações ==
== Debates críticos ==


* análise de cinema histórico 
O conceito de memória protética tem sido objeto de críticas que questionam a sua validade epistemológica, a sua dimensão ética e o seu alcance político. Estas críticas não invalidam o conceito, mas contribuem para a sua reformulação e aprofundamento.
* estudos museológicos 
* educação histórica 
* cultura digital e redes sociais 
* investigação sobre trauma e memória 


== Conceitos relacionados ==
== Conceitos relacionados ==
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== Referências ==
== Referências ==
<references />
<references />


* Landsberg, Alison. ''Prosthetic Memory''. Columbia University Press, 2004. 
* Halbwachs, Maurice. ''La mémoire collective''. 1950   
* Landsberg, Alison. ''Memory, Empathy, and the Politics of Identification''. 2009. 
* Assmann, Jan. ''Cultural Memory''. 2011   
* Hirsch, Marianne. ''The Generation of Postmemory''. 2001. 
* Hirsch, Marianne. ''Postmemory''. 2001  
* Halbwachs, Maurice. ''La mémoire collective''. 1950.  
* Assmann, Jan. ''Cultural Memory and Early Civilization''. 2011.  
* Clark, Andy; Chalmers, David. ''The Extended Mind''. 1998.  
 
== Ligações externas ==


[[Categoria:Estudos da memória]]
[[Categoria:Estudos da memória]]

Edição atual tal como às 11h00min de 1 de maio de 2026


A memória protética é um conceito desenvolvido no campo dos estudos da memória que descreve o processo pelo qual indivíduos incorporam experiências históricas que não viveram diretamente, através da mediação de dispositivos culturais e tecnológicos. A noção foi sistematizada por Alison Landsberg no início do século XXI, no contexto de transformação da cultura mediática, propondo uma reconfiguração profunda das relações entre experiência, representação e memória.

Memória Protética
Definição Incorporação mediada de experiências históricas não vividas diretamente
Área Estudos da memória
Estudos culturais
Media studies
Origem Alison Landsberg, 2004
Contexto Expansão dos media de massa e transformação da cultura da memória
Conceitos relacionados Memória coletiva
Pós-memória
Memória cultural
Mente estendida
Estado Conceito consolidado com debates críticos

Genealogia do conceito

Antecedentes teóricos

A memória protética emerge a partir de um longo processo de transformação conceptual iniciado com a obra de Maurice Halbwachs, cuja formulação da memória coletiva estabelece a premissa de que a memória é socialmente estruturada. Este enquadramento é posteriormente ampliado por Jan Assmann, que introduz a noção de memória cultural, enfatizando a institucionalização e a materialidade dos processos de rememoração.

No entanto, ambas as abordagens mantêm uma relação relativamente estável entre memória e pertença social. A partir do final do século XX, essa relação é tensionada pela centralidade crescente dos media, que passam a operar como mediadores privilegiados da experiência histórica.

É neste contexto que a contribuição de Marianne Hirsch se torna relevante, ao introduzir o conceito de pós-memória, descrevendo a relação das gerações posteriores com traumas históricos não vividos diretamente. Ainda assim, a pós-memória permanece ancorada numa lógica de transmissão familiar, o que a distingue da memória protética.

Formulação por Alison Landsberg

O conceito de memória protética é sistematizado por Alison Landsberg na obra Prosthetic Memory (2004), resultado de uma investigação centrada na relação entre cultura mediática e memória histórica. A autora argumenta que os media não apenas representam o passado, mas produzem condições para que os sujeitos estabeleçam relações afetivas com eventos históricos.

A escolha do termo “protética” indica uma analogia com a prótese enquanto extensão do corpo, sugerindo que a memória pode ser adquirida externamente. Esta formulação implica uma redefinição da memória como fenómeno distribuído e mediado, rompendo com a sua concepção tradicional enquanto experiência interna.

Desenvolvimento posterior

Nos seus trabalhos subsequentes, Landsberg desloca o foco para as implicações éticas e políticas da memória protética, particularmente no que diz respeito à empatia e à identificação. O conceito passa a ser mobilizado não apenas como descrição de um fenómeno, mas como ferramenta crítica para analisar a circulação da memória na cultura contemporânea.

Evolução e reconfiguração

Expansão mediática

Inicialmente centrada no cinema e nos museus, a memória protética expande-se para incluir outros dispositivos mediáticos, acompanhando as transformações tecnológicas e culturais.

Contexto digital

Com a emergência das plataformas digitais, o conceito é reconfigurado para incluir práticas participativas, circulação algorítmica e produção descentralizada da memória.

Articulação com cognição distribuída

A aproximação à teoria da mente estendida de Andy Clark e David Chalmers permite compreender a memória protética como parte de um sistema cognitivo ampliado.

Principais obras

Prosthetic Memory: The Transformation of American Remembrance in the Age of Mass Culture (2004, Alison Landsberg)

Esta obra constitui o ponto de partida do conceito, sendo simultaneamente uma análise histórica da cultura da memória nos Estados Unidos e uma proposta teórica inovadora. Landsberg investiga como o cinema e os museus reconfiguram a relação entre sujeitos e passado, argumentando que estes dispositivos produzem experiências sensoriais capazes de gerar formas de memória que não dependem da vivência direta. A autora mobiliza exemplos concretos, como exposições museológicas e filmes históricos, para demonstrar como a narrativa e a materialidade operam na construção de experiências mnemónicas.

Do ponto de vista conceptual, o livro propõe uma ruptura com a tradição dos estudos da memória ao deslocar o foco da pertença social para a mediação cultural. A memória protética é definida como uma forma de memória adquirida, que se inscreve no sujeito através do contacto com representações do passado. Essa inscrição não é meramente cognitiva, mas envolve uma dimensão afetiva que permite a construção de uma relação pessoal com eventos históricos. A obra estabelece, assim, uma nova forma de pensar a memória na era dos media.

Além disso, Landsberg introduz uma dimensão ética ao conceito, sugerindo que a memória protética pode contribuir para a formação de empatia e responsabilidade social. No entanto, essa proposta não é apresentada de forma ingênua, sendo acompanhada por uma reflexão sobre os limites e as ambivalências da mediação. O livro torna-se, assim, uma referência central não apenas pela introdução do conceito, mas pela sua capacidade de articular teoria, análise empírica e implicações políticas. [1]

Memory, Empathy, and the Politics of Identification (2009, Alison Landsberg)

Nesta obra, Landsberg aprofunda o conceito de memória protética ao deslocar o foco para a análise das formas de identificação produzidas pelos media. A autora investiga como diferentes dispositivos culturais estruturam a relação entre sujeito e passado, propondo que a memória protética não implica uma identificação total com os sujeitos históricos, mas antes uma forma mediada de relação que reconhece a diferença. Este deslocamento é fundamental para evitar a ideia de apropriação da experiência do outro.

A obra desenvolve uma análise mais refinada da dimensão política da memória protética, explorando o seu potencial para promover formas de solidariedade e consciência crítica. Landsberg argumenta que a experiência mediada do passado pode contribuir para a construção de uma ética da responsabilidade, na medida em que permite aos sujeitos confrontarem-se com realidades históricas que lhes são externas. No entanto, essa potencialidade é apresentada como contingente, dependente das condições de mediação.

Ao longo do livro, a autora também responde a críticas dirigidas ao conceito, particularmente aquelas que questionam a possibilidade de incorporação de experiências não vividas. Em vez de rejeitar essas críticas, Landsberg reformula o conceito, enfatizando a sua natureza processual e situada. A memória protética passa a ser entendida como um fenómeno relacional, dependente da interação entre sujeito, media e contexto. [2]

Trabalhos recentes e reconfiguração digital (2010–presente, Alison Landsberg)

Nos seus trabalhos mais recentes, Landsberg reconfigura o conceito de memória protética à luz das transformações digitais, analisando como novas formas de mediação alteram as condições de produção e circulação da memória. A autora passa a considerar ambientes digitais como espaços privilegiados para a formação de memórias protéticas, destacando a importância da interatividade, da participação e da circulação em rede.

Este conjunto de trabalhos evidencia uma mudança significativa na compreensão do conceito, que deixa de ser centrado em dispositivos institucionais para incluir práticas distribuídas e participativas. A memória protética passa a ser entendida como um processo dinâmico, no qual os sujeitos não são apenas receptores, mas também produtores de memória. Esta mudança aproxima o conceito de debates contemporâneos sobre cultura digital e memória.

Ao mesmo tempo, Landsberg mantém uma abordagem crítica, destacando os riscos associados à circulação digital da memória, como a descontextualização e a simplificação histórica. A memória protética continua a ser uma ferramenta analítica relevante, embora cada vez mais complexa, refletindo as tensões e ambiguidades da cultura contemporânea. [3]

Debates críticos

O conceito de memória protética tem sido objeto de críticas que questionam a sua validade epistemológica, a sua dimensão ética e o seu alcance político. Estas críticas não invalidam o conceito, mas contribuem para a sua reformulação e aprofundamento.

Conceitos relacionados

Referências

  1. Landsberg, Alison. Prosthetic Memory. Columbia University Press, 2004.
  2. Landsberg, Alison. Memory, Empathy, and the Politics of Identification. Routledge, 2009.
  3. Landsberg, Alison. Artigos diversos em Memory Studies e New German Critique, 2010–presente.
  • Halbwachs, Maurice. La mémoire collective. 1950
  • Assmann, Jan. Cultural Memory. 2011
  • Hirsch, Marianne. Postmemory. 2001